Uma floresta perdida abrigava um garoto perdido. Era noite de lua cheia e as coisas poderiam estar mais claras e mais visíveis na penumbra, se não fosse pelas nuvens cinzentas de uma doce garoa de outubro. Chovia uma chuva rasa, fina. As gotas de água caiam devagar em cada folha, em cada coisa, em cada momento da floresta, produzindo sons diversos, como uma orquestra mal planejada e ainda assim muito bela. O som era alto, talvez pela extensão da floresta ou da chuva. Independente do motivo, o barulho chegava a ser ensurdecedor. Lentamente, desciam dos céus, tristes gotas que molhavam o mundo, limpando o que precisava ser limpo, curando o que precisava ser curado. Da mesma forma, o garoto chorava, expurgando seus medos, suas aflições, sua solidão. Ele olhava para os lados, suado, sangrando, buscando algum refugio, alguma ajuda que não vinha e não chegava por mais que ele pedisse, implorasse. Sentado em uma pedra cheia de mato, debaixo de um tronco de arvore, ouvindo a própria respiração, ele quase podia entender o tamanho de seus problemas. O corpinho sangrava, e a chuva fazia o sangue escorrer por toda sua roupa e pelo chão, descendo ribanceira abaixo.
Ele tinha 11 anos naquele dia. Sua família resolverá passar o final de semana de seu aniversario acampando, perto da noite e dá natureza. Assim família estaria unida, era o que pensava o pai do garoto. Um filho que era alheio ao mundo. Uma filha que odiava os pais e uma esposa que fingia ter problemas de saúde para justificar a bebedeira… Diante de todos esses problemas, o pai acreditava em uma luz no fim do túnel. Acreditava que naquele aniversario do filho mais novo, naquele final de semana e acampamento, talvez por um segundo (seria o suficiente) eles se transformassem numa família de verdade. Ele sabia que tinha esperanças de mais, que poderia dar tudo errado. No entanto, ele insistiu, e insistiu, e conseguiu levar todos para o meio do mato, para um local perdido para alimentar seu sonho. Deu a seu filho um canivete. A filha, um abraço carinhoso e na esposa um beijo amoroso. Embarcou no carro e, com um sorriso no rosto, seguiu viagem.
Mas ele não contava com as brigas. Não contava com seu filho chorando enquanto a mãe discutia, nem contava com ele correndo, largando o canivete e fugindo para dentro da floresta.
Por três minutos ele tentou apartar a briga entre mãe e filha, enquanto todos pensavam que o garoto logo ia voltar. Nos próximos três, ele olhou para os lados e não acreditou que o filho tivesse sumido. Desaparecido como uma imagem de claridade num pesadelo. Golpeado por um monstro enorme. Perdido em um medo e numa falta de ar totalmente inexplicáveis. Nos minutos seguintes, a família mais desunida do mundo finalmente ficou unida, em prol de uma causa justa, honesta e necessária. Encontrar o garoto perdido em uma floresta perdida
Mas ainda era dia quando tudo isso aconteceu. A noite ainda não tinha chegado, nem a chuva. A floresta era grande. A família recém unida gritava, andava por todos os lados procurando o garoto mais sem sucesso. E em cada minuto que passava, as chances diminuíam, as esperanças iam embora, e as escolhas que antes se mostravam certas pareciam agora erradas. Acampar, não ter buscado ajuda, ter esperado escurecer, tudo parecia errado demais para ser verdade, pensava o pai. Mais, mesmo com o medo terrível de não encontrar o filho, o chefe da casa não consiga deixar de ficar feliz por ver a família finalmente junta. Talvez, pensava ele, fosse por isso que ele não tinha chamado ajuda da policia, para manter aquele instante interminável, aquela união para encontrar o garoto quase eterna. Ele viu a cena dos três encontrando-o, chorando de felicidade e se abraçando. Podia, em sua cegueira, ver um ápice de felicidade, onde ele seria o papai, o grande papai, consagrado o Herói do dia. Era aquilo que ele estava esperando, só podia ser. A oportunidade de juntar todos… Escondeu um sorriso da esposa, e continuou procurando. Era só achar o garoto e tudo ficaria bem.
A chuva que antes era rasa e fina, agora era tempestade. Eram raios, trovões, e era o medo no garoto perdido. Seus olhos brilhavam na escuridão dá noite, e sua suave voz já há muito se cansara de gritar. Seu choro agora era nada. Encostado no tronco, ele olhava o corte na barriga, e via que o sangue se espalhava por todo o lugar. No chão, em sua calça, em suas mãos. Ele não sabia explicar como, mais podia distinguir ali, sua vida se esvaindo, sua alma partindo dessa existência e o sofrimento acabando. De fato, a dor era cada vez menor, uma sensação de sonolência começava a invadi-lo. Ele já não conseguia pensar em nada, só naquele sono que vinha com força não se sabe dá onde, nem o por que. Seu corpinho ficava mais fraco, ele ia se deitando, encostando cada vez mais na pedra, alheio ao mundo que caia ao seu redor e ao ferimento do tombo, que de pouco em pouco, levava sua vida junto com seu sangue.
Duas horas se passaram. A mata agora menos densa, não demonstrava sinais de que iria facilitar as coisas para o pai, agora num estado de desespero quase irracional. A tempestade também não dava trégua, trovejando e molhando, como quem adora dificultar as coisas. O cansaço físico e o emocional competiam para decidir quem primeiro derrubaria o velho homem que, sem qualquer preparo e guiado apenas pelo amor e esperança de reencontrar o garoto, ainda conseguia ver um final feliz. Chateava-se pelo fato de que sua esposa e filha, até então tão esforçadas, agora gritavam menos. Perdiam as esperanças. Na verdade, sofriam muito mais, em silencio, antecipando um final trágico para aquela noite terrível. As lanternas também pareciam corresponder ao clima de derrota, fraquejando, apagando de tempos em tempos, escurecendo novamente a noite mais escura de todas as noites.
Foi à filha quem viu primeiro. Há água era tanta que transformava uma pequena vala, na colina, em um rio que descia rápido por toda a extensão da floresta. Mais a água estava estranha. Por um segundo ela achou que tinha sangue nela… Então mirou a lanterna e viu que era realmente sangue. Quase tanto sangue quanto água. Ela subiu rápida a lanterna pela vala, prendeu a respiração, tremendo, com medo do que poderia encontrar. Logo, num clarão de um raio que a noite jogou naquela floresta, um trovão que parecia sorrir de toda aquela desgraça, ela viu de relance, por um maldito instante, muito acima dali, um garoto perdido, encostado em uma pedra, como se dormisse, sonhando, sonho feliz de criança contente.
Ela gritou um aviso para a família. Correu com todo o resto de suas forças para o irmãozinho que tanto amava, e que agora estava ali, a metros de distancia. A família correu junta. O pai tropeçou, levantou e continuo lutando contra a lama e conta a fadiga, contra o frio e contra a chuva que não paravam em segundo algum. Ele sabia que o filho estava morto, mais mesmo assim, aquela esperança que o acompanhou durante todo aquele dia, que o acompanhou por toda sua vida, novamente se mostrava mais forte que a realidade e dizia… Tudo vai ficar bem, seu filho está bem… Ele sabia que não, mas mesmo assim ousou acreditar. Ousou e continuou correndo.
Parados, em um semicírculo em volta do garoto morto, à família só podia chorar. Não ousavam olhar uns para os outros, só para aquele corpinho fraco e indefeso. Como um sonho, a chuva foi parando até voltar a ser apenas uma garoa. Mas não naquelas três pessoas sem vida. Para elas, aquela tempestade num dia de outubro durou pra sempre, sempre e sempre.
Lucas Maio