Era um banco de praça, bem branco, nada de mais. A madeira estava lascada em algumas partes, mas via-se um empenho de qualquer alma bondosa para manter aquele velho banco de praça ainda utilizável. Mesmo sofrendo debaixo de chuvas, tempestades, bêbados e ocasionalmente fezes aéreas, lá estava ele, pronto a oferecer um conforto precário para qualquer passante cansado. Único, afinal, todos os outros assentos da praça foram destruídos por vândalos, pessoas sem a menor noção da falta que faz um bom e velho banco. Portanto, em certas tardes quentes de domingo, ele chegava a ser disputado pelos vizinhos, loucos para um contato com as ruas, prontos para passar algumas horas olhando quem passa e quem vai embora, pessoas atarefadas realmente. Ninguém sabia do autor daquela construção tão importante para o funcionamento do bairro. Do ser que, em um momento de luz, levou para um lugar inóspito um pouco de civilidade. Sentar num banco de praça é exercer seu direito como morador de uma cidade, como não. Ele resistia, o banco, com seu branco desgastado, e permanecia, enquanto tudo em volta de si se alterava.
Não se sabia com certeza há quanto tempo ele estava lá. Os moradores, mesmo os mais antigos, lembravam-se dele em suas infâncias, de traquinagens e brincadeiras com sua modesta participação. Ou seja, a historia de sua construção estava perdida a muito, assim como um ou dois de seus parafusos. Na realidade, a historia do banco não era importante. Quem quer saber sua idade, ou coisa do tipo? No entanto, nublado por essa visão de inutilidade, ele acabava passando despercebido na vida das pessoas.
Na verdade, todos os instantes em que elas se acomodavam naquele banco de praça, numa tarde vazia qualquer, deixavam marcada na madeira amarelada. Traços de suas histórias, de suas lágrimas. Suas risadas, seus reencontros. Vidas que passaram por ali, sem perceber que aquele lugar absorvia tudo, como uma esponja. Absorvia esses momentos tocantes e inesquecíveis, como um amigo curioso, um inimigo esperto. Ele silenciava e aguardava sempre, pouco chateado com a partida das pessoas. Sabia que novas chegariam.
Foi nele que eu te levei para tomar sorvete há muito tempo atrás, no nosso primeiro encontro. Cada um estava sentado em uma ponta, ambos sorrindo nervosos. Era a vontade louca de largar aquela coisa derretendo em nossas mãos e se jogar um encima do outro. E foi o que fizemos, pouco tempo depois. Como aquela tarde foi incrível, como nunca me arrependi te ter jogado o sorvete fora. E lá estava o banco, quieto, mais absorto.
Anos mais tarde, estávamos sentados no mesmo lugar. Novamente, cada um em sua ponta, você me olhou nos olhos e disse que estava cansada do nosso namoro. Que era hora de coisas novas e não queria me arrastar para sempre. E eu te disse que não fazia questão de continuar e que eu já não sentia a mesma coisa. Viramos nossos rostos para lados opostos, como olhando para dentro de nós mesmos, sabendo que nos amávamos, mas que era tarde. Você foi embora, e naquele momento, sua casa que era logo ali do lado parecia distante
em demasia. Não me movi daquele banco por horas. Chorava. E nós dois, o banco e eu, sentimos o vazio do abandono. Ele estava triste também, mas calado.
O João Baptista, dono da padaria aqui do lado, muito simpático, disse-me ontem que brilhante governo, em mais uma brilhante idiotice, vendeu a praça. Alguma construtora qualquer vai tirar o mágico banco e destruir a praça no domingo, para subir um grande residencial no lugar. Achei irônico. Afinal, você vai casar na semana que vêem não é? Então, aqui sentado, novamente no banco de tantas vidas, não só das nossas, te escrevo essa carta, nessa tarde ensolarada de outono.
Estou construindo um novo residencial em minha vida, com piscina, playground, grande áreas de serviço e sauna a vapor. Tem HomeTheater, até. Fico muito feliz com o seu casamento, mas devo recusar o convite que você me fez. Por que, é a pergunta que você faz, certo? Porque seu casamento, como a destruição daquele velho banco branco, vai causar um efeito estranho em minha pessoa. Um vazio, talvez. Algo que vai passar, sem dúvida, mas que será doloroso no tempo em que estiver comigo. Fico pensando em quantas vidas vão ser levemente alteradas com a destruição de tão magnífico símbolo de nosso bairro. Esse lugar deveria ser tombado, patrimônio histórico.
Portanto, não quero, nesses próximos dias, ver nem o seu noivo e muito menos o dono da construtora. Daria um sopapo em ambos e xingaria enquanto houvesse cordas vocais. Exigira uma explicação contundente sobre o motivo para acabar com as minhas esperanças. Gostaria de saber o que eles querem fazer com meu coração.
Enfatizo, esse sofrimento será nesses próximos dias. Depois tudo ficaria bem. Fique tranqüila.
Encerro essa carta, amiga. Tenho que buscar minha mulher e filhas no clube.
Beijos
Lucas Maio.