Archive for May, 2005

Ventos

Sunday, May 22nd, 2005

Essa brisa fraca que bate no rosto é vontade. É quando tu passas por meus olhos com teus olhos, e me deixas querendo tocar-te os lábios, acariciar-te os cabelos, pousar minhas mãos sobre tua cintura. Tu em minha mente, que pensa em nossos corpos juntos por alguns momentos. Essa vontade que passa como uma brisa fraca que bate no rosto, e que vai embora.


 

Esse vento forte que bate no rosto é tesão. É querer tua mão na minha, caminhando contigo nesse sábado à noite. Querer conhecer teus pais e levar-te para onde eles não possam ver-nos… Depois fazer com que as estrelas desçam simplesmente para perto de nós. Tu em minha mente, que imagina nossos corpos juntos por uma fração de tempo correspondente a intensidade da luz do teu olhar. Essa vontade maior, que passa como um vento forte e que bate no rosto, indo embora cedo demais.

 

Esse furacão que me atira para todas as direções é paixão. É quando eu quero ter-te comigo integralmente, mesmo quando tu dormes bela e infinita.  Ser a felicidade do teu sorriso, o choro da tua tristeza, o abraço apaixonado. Querer-te mais e mais, até que minha alma transborde e eu enlouqueça. Morrer quando tu morres, e viver por ti enquanto eu puder. Quero caminhar contigo em todas as noites, de todos os dias. Tu em minha mente, que implora por nossos corpos juntos, em uma fração de tempo que gostarias de chamar Eternidade. Essa paixão incompreensível e perfeita, que joga-nos de um lado para o outro, assombra, e mesmo quando não queres, vai embora um dia.

 

Beijos

Lucas Maio

Neruda

Wednesday, May 18th, 2005

Pablo Neruda - Puedo escribir los versos más tristes esta noche. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis…

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Banco de Praça

Tuesday, May 10th, 2005

Era um banco de praça, bem branco, nada de mais. A madeira estava lascada em algumas partes, mas via-se um empenho de qualquer alma bondosa para manter aquele velho banco de praça ainda utilizável. Mesmo sofrendo debaixo de chuvas, tempestades, bêbados e ocasionalmente fezes aéreas, lá estava ele, pronto a oferecer um conforto precário para qualquer passante cansado. Único, afinal, todos os outros assentos da praça foram destruídos por vândalos, pessoas sem a menor noção da falta que faz um bom e velho banco. Portanto, em certas tardes quentes de domingo, ele chegava a ser disputado pelos vizinhos, loucos para um contato com as ruas, prontos para passar algumas horas olhando quem passa e quem vai embora, pessoas atarefadas realmente. Ninguém sabia do autor daquela construção tão importante para o funcionamento do bairro. Do ser que, em um momento de luz, levou para um lugar inóspito um pouco de civilidade. Sentar num banco de praça é exercer seu direito como morador de uma cidade, como não. Ele resistia, o banco, com seu branco desgastado, e permanecia, enquanto tudo em volta de si se alterava.


 

Não se sabia com certeza há quanto tempo ele estava lá. Os moradores, mesmo os mais antigos, lembravam-se dele em suas infâncias, de traquinagens e brincadeiras com sua modesta participação. Ou seja, a historia de sua construção estava perdida a muito, assim como um ou dois de seus parafusos. Na realidade, a historia do banco não era importante. Quem quer saber sua idade, ou coisa do tipo? No entanto, nublado por essa visão de inutilidade, ele acabava passando despercebido na vida das pessoas.

 

Na verdade, todos os instantes em que elas se acomodavam naquele banco de praça, numa tarde vazia qualquer, deixavam marcada na madeira amarelada. Traços de suas histórias, de suas lágrimas. Suas risadas, seus reencontros. Vidas que passaram por ali, sem perceber que aquele lugar absorvia tudo, como uma esponja. Absorvia esses momentos tocantes e inesquecíveis, como um amigo curioso, um inimigo esperto. Ele silenciava e aguardava sempre, pouco chateado com a partida das pessoas. Sabia que novas chegariam. 

 

Foi nele que eu te levei para tomar sorvete há muito tempo atrás, no nosso primeiro encontro. Cada um estava sentado em uma ponta, ambos sorrindo nervosos. Era a vontade louca de largar aquela coisa derretendo em nossas mãos e se jogar um encima do outro. E foi o que fizemos, pouco tempo depois. Como aquela tarde foi incrível, como nunca me arrependi te ter jogado o sorvete fora. E lá estava o banco, quieto, mais absorto.

 

Anos mais tarde, estávamos sentados no mesmo lugar. Novamente, cada um em sua ponta, você me olhou nos olhos e disse que estava cansada do nosso namoro. Que era hora de coisas novas e não queria me arrastar para sempre. E eu te disse que não fazia questão de continuar e que eu já não sentia a mesma coisa. Viramos nossos rostos para lados opostos, como olhando para dentro de nós mesmos, sabendo que nos amávamos, mas que era tarde. Você foi embora, e naquele momento, sua casa que era logo ali do lado parecia distante
em demasia. Não me movi daquele banco por horas. Chorava. E nós dois, o banco e eu, sentimos o vazio do abandono. Ele estava triste também, mas calado.

 

O João Baptista, dono da padaria aqui do lado, muito simpático, disse-me ontem que brilhante governo, em mais uma brilhante idiotice, vendeu a praça. Alguma construtora qualquer vai tirar o mágico banco e destruir a praça no domingo, para subir um grande residencial no lugar. Achei irônico. Afinal, você vai casar na semana que vêem não é? Então, aqui sentado, novamente no banco de tantas vidas, não só das nossas, te escrevo essa carta, nessa tarde ensolarada de outono.

 

Estou construindo um novo residencial em minha vida, com piscina, playground, grande áreas de serviço e sauna a vapor. Tem HomeTheater, até. Fico muito feliz com o seu casamento, mas devo recusar o convite que você me fez. Por que, é a pergunta que você faz, certo? Porque seu casamento, como a destruição daquele velho banco branco, vai causar um efeito estranho em minha pessoa. Um vazio, talvez. Algo que vai passar, sem dúvida, mas que será doloroso no tempo em que estiver comigo. Fico pensando em quantas vidas vão ser levemente alteradas com a destruição de tão magnífico símbolo de nosso bairro. Esse lugar deveria ser tombado, patrimônio histórico.

Portanto, não quero, nesses próximos dias, ver nem o seu noivo e muito menos o dono da construtora. Daria um sopapo em ambos e xingaria enquanto houvesse cordas vocais. Exigira uma explicação contundente sobre o motivo para acabar com as minhas esperanças. Gostaria de saber o que eles querem fazer com meu coração.

 

Enfatizo, esse sofrimento será nesses próximos dias. Depois tudo ficaria bem. Fique tranqüila.

 

Encerro essa carta, amiga. Tenho que buscar minha mulher e filhas no clube.

 

Beijos

Lucas Maio.   

Cães do Mato…

Wednesday, May 4th, 2005

Vou avisando que não vou agradar nesse texto. Se não estiver afim, não leia. Hoje não estou escrevendo sobre algum assunto inexplicável, um fato super-relevante ou um amor perdido. Estou escrevendo por que preciso, por que senti vontade. Tive um momento remember olhando minha sagrada pasta de fotos e bateu saudade. E por culpa dela que estou aqui gastando meu tempo, da saudade.


 

Saudade de um parquinho com chão de areia. Eu adorava pular e brincar. Gritava ser o dono da pedra dos sonhos. Às vezes me transformava na fera, corria atrás dos meus amigos. Atualmente, deles eu só converso com dois, e mal. Disputava quem conseguia chegar mais alto balançando-se nos cavalinhos. Quem era o mais rápido na brincadeira “Desafio”, inventada por minha pessoa, com muito orgulho, obrigado. (Saudade de correr sem ter motivo, sem precisar chegar cedo em lugar algum). Vivia lá, naquele lugar quase mágico, a infância que nunca tive numa casa onde a rua era perigosa demais. A compania constante da vizinha Juliana, de quem agora eu só tenho uma vaga lembrança, também tinha deixado a desejar, indo embora. Não faço a mínima idéia de onde ela se encontra hoje. Não fui uma criança infeliz, claro que não, adorava meus bonecos, a casa só para mim. Mas eu queria a rua, a liberdade de poder jogar bola no asfalto.

 

Saudade da esquizunba que é estudar em um colégio pequeno. Aonde se conhece até os segredos obscuros dos cachorros, Tchan e Veruska, dois huskis siberianos que agora já descansam “em pança” (Saudade de assistir o Chaves depois do almoço, com o prato de comida no colo e uma garrafa quase acabada de coca cola sem gás do meu lado).  Nasci para vida naquele colégio, em vários momentos. Conheci pessoas estupendas e imbecis, honradas e desgraçadas, bandidos e mocinhos. Foi lá que encontrei meus irmãos de consideração, amigas incríveis, dois ou três inimigos ocasionais. Como eu dei risada naquela época. (Saudade de cair no chão de tanto rir, atrapalhando a aula do professor ou sendo vitima de um ocasional montinho). Não lembro de ter chorado, mas eu acho que chorei.

 

Saudade dos Cães do Mato. (Saudade de fugir na sexta aula e tirar um medieval nos fundos, saudade de cabular a aula e ir jogar bola no Sagula). A oitava série foi especial em vários sentidos, mais o segundo ano do colegial talvez tenha moldado a pessoa que eu sou hoje. Tudo que eu vivi naquele ano… Nem somando todos os outros existiria comparação. Foi muita coisa. Felicidade, tristeza, paixão, insegurança, brigas, planos, sonhos, vontades. (Saudade do futebol no intervalo, dos papos dois a dois na sala, de parar todo mundo com uma piada engraçada. Saudade daquele ano inesquecível.)

 

É tanta coisa, valha-me Deus.

 

Não estou vivendo uma fase triste. Não sei. Talvez seja o frio, sei lá. Foi só um sentimento genuíno, passado em letras para o computador. Não quero achar uma solução, por que, sinceramente, não tenho um problema. Sentir saudade não é uma coisa ruim, pelo contrário. Mostra quanto nós vivemos, aprendemos e amadurecemos. Ensina-nos a valorizar quem fomos para poder seguir a diante e deixar mais saudade por onde se passa. Imagine se vivessemos 18 anos e não nos importassemos com o que deixamos para trás… Seria cruel.

 

Beijos

Lucas Maio