Archive for June, 2005

Portugal Parte 1

Friday, June 17th, 2005

Nunca vou esquecer aquele dia. O Golf Verde de meu avô fazia curvas e passeava ruas do seu bairro íngreme e humilde, em algum lugar perto do shopping Interlagos. Um sol agravável de março batia em todos os cantos, e a cidade seguia seu rumo diário, de confusões, odores e bagunça. Cada qual vivendo sua vida, as pessoas pareciam não se importar com nosso carro atravessando os seus dias. Mesmo se eu acenasse não me notariam. Éramos só um carro, como tantos outros, perdidos como todos os perdidos da cidade de São Paulo.


 

E eu era só um garoto, perdido em minha imaginação. Respeitando o silencio já conhecido daqueles dois portugueses sentados a minha frente, papai e vovô, limitava-me a olhar pela janela. Via um mundo confuso para minha breve idade. Meus olhos miravam aqueles postes, barracas e cachorros vadios, o cenário todo, mas minha mente se encontrava em lugares muito distantes dali. Em dado momento, eu era rápido o suficiente para acompanhar o carro numa corrida, passa-lo, e ainda sorrir irônico para trás. Em outro, era o herói da humanidade, lutava de espada e escudo contra um rival de igual poder, e juntos definíamos o destino do mundo. Passava depois para um vôo limpo e lindo pelos céus, sentido a vertigem de ser uma águia, sem ter que me preocupar com lições de casa. Quieto, calado, era a eternidade e o novembro de 2027, era a constelação vizinha e o companheiro do pequeno príncipe na lua. Era tudo isso, e muito mais, às vezes muito menos, até que fui acordado de tudo isso pela voz carrancuda de meu avô.

 

Sua barreta lhe dava um ar sério. As marcas em seu rosto denunciavam uma vida de provações, vitórias e infelicidades, mesmo ele nem sendo tão velho assim. Pele um pouco morena, olhos fundos e graves. Uma barriga protuberante trazia um pouco de graça para aquela fisionomia dura, que, na realidade, escondida um bom humor raro para os avôs. Respondi ao chamado com um olhar curioso para o retrovisor. Ele me olho e disse simplesmente:
- Como anda o colégio ?!

- Bem…

- Bom. Vamos para Portugal em julho, então não fique para recuperação.

 

Foi quando eu abri minha boca e pensei
em discutir. Falar que não sabia se tinha real vontade de viajar. Que talvez tivesse medo de avião, que não queria ir para tão longe para ver umas montanhas e um povo diferente. Poxa, por que me arriscar em uma viagem enquanto poderia ficar em casa vendo desenhos e comendo o dia inteiro?

 

Mas aquele era meu avô, e o ar a sua volta, sua presença, não me davam oportunidade de discussão. O silencio era terrível. Portanto, ele disse, e estava dito.

Divindade

Tuesday, June 14th, 2005

Eu estava esperando por ti

Por tanto tempo que não podia contar.

Passei milhões de anos numa solitária tristeza

Comecei a ficar cansado de esperar.


 

Sentando em minha rede alta e divina

Observava as nuvens, as chuvas e a lua,

Que criei para que pudesse me entreter

Com algo sem ser a presença tua.

 

Mas minha alegria foi muito curta

E quando resolvi que com um estalar

Destruiria toda existência de sul a norte

Tu decidiste (corretamente) uma carta mandar.

 

Dizia: Talvez me demore um pouco,

Apronte nossa felicidade, espante tua solidão.

Estou louca para chegar a sua morada celestial,

E acender o céu com nossa paixão.

 

Namorei a carta por centenas de anos

Que viram centenas de ciclos solares.

Minha paz estava perdida a muito

E em tristeza derrubei mundos aos milhares.

 

Para aplacar minha fúria, montada em uma águia azul,

Tu resolveste finalmente aparecer.

Criei novas constelações em sua homenagem,

De tão bela, e tão linda, fez-me tremer.

 

Nossos corpos juntos à luz da lua, perfeito

Como teus olhos, brilhando com a intensidade das primaveras.

Paramos o mundo com nossos sonhos e devaneios,

Romperam-se todos os ciclos, todas as eras.

 

Passado o tempo de quase um segundo,

Assobiaste com teus lábios molhados de amor.

E a águia como por encanto infelizmente surgiu.

Senti a chegada, com tua partida, da dor.

 

Mas antes de fugir e viver fora do meu coração,

Sentindo que eu também quase partia,

Tu olhaste para trás e teus olhos diziam:

Não sintas saudades, sou tua menina. 

 

E aqui ainda espero teu retorno

Que voltes e me tire novamente a divindade.

Escrevo versos, deito à rede no espaço,

Aguardo por toda eternidade.

Nada demais…

Sunday, June 5th, 2005

Na velocidade que a vida passa, às vezes fica difícil avaliar as mudanças dentro de nós. Elas ocorrem tão diariamente, que passam nulas por nossos olhos preocupados, parecem ter a importância diminuída. Isso é triste. Deveríamos ser informados sobre cada detalhe, cada permuta, por um e-mail ou torpedo SMS, assim podendo ficar cientes de nossas próximas ações, decisões. É incrível esse dom que temos de sermos tão diferentes e tão parecidos conosco. Certos traços nunca mudam, outros mudam tanto que ficam irreconhecíveis. Nessa eterna metamorfose chamada vida, sinto-me perdido.

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Deixe que o sol entre

Por essa porta fechada

Abra as janelas e permita que o ar adentre

Numa corrente de vento velada


 

Permita-se sentir a torrente

Poderosa e sedutora que vem da vida

Olhe nos olhos do céu carente

Abrace esse momento único querida.

 

Por que o tempo é alheio a nossa vontade

Ele não espera que decidamos com precisão

Vamos nos amar enquanto houver intensidade

Nesses corpos cobertos de paixão.

 

Beijos

Lucas Maio