Nunca vou esquecer aquele dia. O Golf Verde de meu avô fazia curvas e passeava ruas do seu bairro íngreme e humilde, em algum lugar perto do shopping Interlagos. Um sol agravável de março batia em todos os cantos, e a cidade seguia seu rumo diário, de confusões, odores e bagunça. Cada qual vivendo sua vida, as pessoas pareciam não se importar com nosso carro atravessando os seus dias. Mesmo se eu acenasse não me notariam. Éramos só um carro, como tantos outros, perdidos como todos os perdidos da cidade de São Paulo.
E eu era só um garoto, perdido em minha imaginação. Respeitando o silencio já conhecido daqueles dois portugueses sentados a minha frente, papai e vovô, limitava-me a olhar pela janela. Via um mundo confuso para minha breve idade. Meus olhos miravam aqueles postes, barracas e cachorros vadios, o cenário todo, mas minha mente se encontrava em lugares muito distantes dali. Em dado momento, eu era rápido o suficiente para acompanhar o carro numa corrida, passa-lo, e ainda sorrir irônico para trás. Em outro, era o herói da humanidade, lutava de espada e escudo contra um rival de igual poder, e juntos definíamos o destino do mundo. Passava depois para um vôo limpo e lindo pelos céus, sentido a vertigem de ser uma águia, sem ter que me preocupar com lições de casa. Quieto, calado, era a eternidade e o novembro de 2027, era a constelação vizinha e o companheiro do pequeno príncipe na lua. Era tudo isso, e muito mais, às vezes muito menos, até que fui acordado de tudo isso pela voz carrancuda de meu avô.
Sua barreta lhe dava um ar sério. As marcas em seu rosto denunciavam uma vida de provações, vitórias e infelicidades, mesmo ele nem sendo tão velho assim. Pele um pouco morena, olhos fundos e graves. Uma barriga protuberante trazia um pouco de graça para aquela fisionomia dura, que, na realidade, escondida um bom humor raro para os avôs. Respondi ao chamado com um olhar curioso para o retrovisor. Ele me olho e disse simplesmente:
- Como anda o colégio ?!
- Bem…
- Bom. Vamos para Portugal em julho, então não fique para recuperação.
Foi quando eu abri minha boca e pensei
em discutir. Falar que não sabia se tinha real vontade de viajar. Que talvez tivesse medo de avião, que não queria ir para tão longe para ver umas montanhas e um povo diferente. Poxa, por que me arriscar em uma viagem enquanto poderia ficar em casa vendo desenhos e comendo o dia inteiro?
Mas aquele era meu avô, e o ar a sua volta, sua presença, não me davam oportunidade de discussão. O silencio era terrível. Portanto, ele disse, e estava dito.