“Abra seus olhos” murmurou uma voz dentro de sua mente. Obediente, ele obedeceu.
Sua vista estava cansada, como quando era assaltado por um sono deverás forte. Era só disso que lembrava, do sono, do cansaço. Seu nome, onde se encontrava, a cor de suas meias, tudo parecia ter sido deletado de sua mente com uma borracha branca, daquelas com uma capinha verde. Devagar, com medo do que poderia ver, ele abriu os olhos.
A fraca luz da lua entrava pela janela e iluminava o escritório envelhecido. As molduras dos quadros, com fisionomias e paisagens invernais, foram feitas de mogno, a muito tempo atrás, sobre encomenda. As poltronas e escrivaninha eram claramente de carvalho, carvalho velho e nobre. O tapete, branco e visualmente muito fofo, dava um toque doce para o ambiente, mas não conseguia apagar a presença sombria dos livros. Quantos livros. Cada um deles foi tocado e ouvido, cheirado e sentido, e agora, depois de muitos anos de desuso, só serviam para enfeitar as estantes e deixar um acre cheiro de conhecimento no ambiente, uma tensão intelectual e digna de um desses escritórios com cara de anos passados. Aquela fraca luz branca vinda de fora piorava a cena, clareando aqui e ali, escurecendo do outro lado, movendo sombras e penumbras, conferindo movimento a uma sala tão estática. Ele estava num assento próximo a porta, ainda cansado, mas agora de olhos abertos.
Pode ver então que o tapete já não era tão branco. Uma parte superior a metade estava tingida de uma cor da qual ele não lembrava o nome. O cansaço persistia, e aos poucos ia se intensificando. Sua visão estava desfocada, ainda que ele fizesse uma força imensurável para focalizar algo estranho próximo a escrivaninha. Era um corpo, pareceu lembrar-se.
Lágrimas. Sentiu o rosto molhado, mas não sabia por que. Uma tristeza tão intensa quanto a faca de caça em sua barriga se apoderou de seu corpo, tocando cada centímetro, trazendo infelicidade para cada molécula e sopro de ar em seus pulmões. Não queria mais nada, apenas fechar os olhos.
“Abra seus olhos” disse de novo aquela voz rouca e estranhamente sua.
Faca? Se deu conta daquele objeto metálico, enfiado todo dentro de uma região próxima ao seu umbigo. Lembrou-se de sentir dor. Terrível. Mas ainda não era suficiente para afastar a aspereza daquele corpo caído, perto da escrivaninha, todo retorcido, provavelmente morto.
Morte. Recordou-se vagamente da morte e conseguiu também enxergar sangue em sua roupa, sangue em suas meias, sangue no tapete. Não via mais o corpo, tinha sumido, agora só via sangue. No entanto, a tristeza não passou. Persistiu mantendo um abismo dentro dele, intocável. Ainda não conseguia encontrar no nome da nova cor do recinto.
Então era isso? Sem visões do passado, sem lembranças de crianças brincando na praia. Sem a recordação do primeiro beijo, sem se lembrar da primeira dança. Nada de utopia, nada de luz no final do túnel. Nem Deus, nem o Diabo, nem nada. O final da vida se apresentava: frio, quieto, triste, lamentavelmente fraco como a luz da lua, complementando por um esquecimento agudo, que embriagava e levava tudo para muito longe dali.
Lágrimas. Sangue. Faca. Vermelho. Suas meias eram da cor vermelha.
Morreu sem lembrar seu nome, mas não deixou de sorrir para as meias tão vivas e quentes, vermelhas.
