Archive for September, 2005

Vermelhas…

Monday, September 26th, 2005

“Abra seus olhos” murmurou uma voz dentro de sua mente. Obediente, ele obedeceu.


 

Sua vista estava cansada, como quando era assaltado por um sono deverás forte. Era só disso que lembrava, do sono, do cansaço. Seu nome, onde se encontrava, a cor de suas meias, tudo parecia ter sido deletado de sua mente com uma borracha branca, daquelas com uma capinha verde. Devagar, com medo do que poderia ver, ele abriu os olhos.

 

A fraca luz da lua entrava pela janela e iluminava o escritório envelhecido. As molduras dos quadros, com fisionomias e paisagens invernais, foram feitas de mogno, a muito tempo atrás, sobre encomenda. As poltronas e escrivaninha eram claramente de carvalho, carvalho velho e nobre. O tapete, branco e visualmente muito fofo, dava um toque doce para o ambiente, mas não conseguia apagar a presença sombria dos livros. Quantos livros. Cada um deles foi tocado e ouvido, cheirado e sentido, e agora, depois de muitos anos de desuso, só serviam para enfeitar as estantes e deixar um acre cheiro de conhecimento no ambiente, uma tensão intelectual e digna de um desses escritórios com cara de anos passados. Aquela fraca luz branca vinda de fora piorava a cena, clareando aqui e ali, escurecendo do outro lado, movendo sombras e penumbras, conferindo movimento a uma sala tão estática. Ele estava num assento próximo a porta, ainda cansado, mas agora de olhos abertos.

 

Pode ver então que o tapete já não era tão branco. Uma parte superior a metade estava tingida de uma cor da qual ele não lembrava o nome. O cansaço persistia, e aos poucos ia se intensificando. Sua visão estava desfocada, ainda que ele fizesse uma força imensurável para focalizar algo estranho próximo a escrivaninha. Era um corpo, pareceu lembrar-se.

 

Lágrimas. Sentiu o rosto molhado, mas não sabia por que. Uma tristeza tão intensa quanto a faca de caça em sua barriga se apoderou de seu corpo, tocando cada centímetro, trazendo infelicidade para cada molécula e sopro de ar em seus pulmões. Não queria mais nada, apenas fechar os olhos.

 

“Abra seus olhos” disse de novo aquela voz rouca e estranhamente sua.

 

Faca? Se deu conta daquele objeto metálico, enfiado todo dentro de uma região próxima ao seu umbigo. Lembrou-se de sentir dor. Terrível. Mas ainda não era suficiente para afastar a aspereza daquele corpo caído, perto da escrivaninha, todo retorcido, provavelmente morto.

 

Morte. Recordou-se vagamente da morte e conseguiu também enxergar sangue em sua roupa, sangue em suas meias, sangue no tapete. Não via mais o corpo, tinha sumido, agora só via sangue. No entanto, a tristeza não passou. Persistiu mantendo um abismo dentro dele, intocável. Ainda não conseguia encontrar no nome da nova cor do recinto.

 

Então era isso? Sem visões do passado, sem lembranças de crianças brincando na praia. Sem a recordação do primeiro beijo, sem se lembrar da primeira dança. Nada de utopia, nada de luz no final do túnel. Nem Deus, nem o Diabo, nem nada. O final da vida se apresentava: frio, quieto, triste, lamentavelmente fraco como a luz da lua, complementando por um esquecimento agudo, que embriagava e levava tudo para muito longe dali.

 

Lágrimas. Sangue. Faca. Vermelho. Suas meias eram da cor vermelha.

 

Morreu sem lembrar seu nome, mas não deixou de sorrir para as meias tão vivas e quentes, vermelhas.  

Um beijo pra…

Sunday, September 25th, 2005

(Xuxa)

- Então, quer mandar beijos pra quem?

(Eu)

- Olha, eu gostaria de agradecer…


 

Aos meus amigos, porque sem esses caras eu não teria momentos tão hilários, noites tão esquisitas, companheiros pra tantas cagadas. Mesmo que eu já não acredite na eternidade de uma amizade, por ver inúmeros desfechos tristes de amigos para vida toda, eu sei a importância cada aperto de mão, favor e pedido. Sei que nem sempre é possível manter a fidelidade. Mas acredito piamente que devemos manter a honestidade. Vamos curtir enquanto pudermos, perdoar enquanto tivermos paciência e vivermos por que é só o que sobra. (Aos amigos casados, um aviso: não posso competir com as mulheres, mas quando essas pelas quais vocês perdidamente se apaixonaram os largarem na soleira da porta aos prantos – por que isso pode acontecer – estaremos aqui com cervejas e histórias). 

 

As minhas amigas, porque sem sorrisos carinhosos, abraços apertados, beijos na trave e pedidos inflamados, a vida não teria muito sal. No entanto, gostaria de avisá-las sobre a inevitabilidade dos corpos. Nascemos todos fadados ao “pecado original” e por mais que eu as ame, vejo um problema: eu sou homem, vocês mulheres. Portanto, nossa amizade só continuará existindo enquanto tivermos consciência de que a carne é fraca, os instintos são mais fortes que os conceitos, beijos na boca acontecem. Se aceitarmos essas verdades com honestidade vinda do coração, seremos amigos. Então me perdoem de antemão por qualquer chaveco atravessado, independente da quantidade de álcool. Eu já as perdoei. Talvez nos acabemos vivendo sempre muito perto da linha que separa amizade de paixão, mas é o jeito.

 

A minha família, por serem os amigos eternos e amigas sem segundas intenções que eu não pedi para Deus, mas ele mesmo assim teve a boa vontade de me entregar. Amo-os incondicionalmente, e não preciso de comprovação da parte de ninguém para entender que é recíproco. Queria apenas que tivessem um pouco mais de paciência com esse garoto, que às vezes parece ter 80 anos, em outras cinco. Um garoto que ainda não sabe se quer ser Dom Quixote, Hitler ou Vinícius de Morais. Vocês me pedem um futuro brilhante, uma carreira esplendida, mas eu não posso lhes dar isso agora. Apenas um atestado de tentativa, de ser quem eu sou sempre. Criaram um aquariano de vontade inconstante como a correnteza de um rio certo? Agora esperem para ver o resultado.

 

A Morte, por ter me dado 18 anos maravilhosos de vida. Mas peço, com humildade e resignado, que me descole mais muitos outros.

 

A Vida, por ser tão imprevisível e com tantos altos e baixos… Imploro, com intensidade, que os altos sejam ainda mais altos e os baixos sejam o quanto baixos devem ser.

 

E um beijo especial pra você Xuxa!

Xuxa? Pessoal? Cadê todo mundo?

Discurso

Thursday, September 22nd, 2005

Tudo ainda parece surreal quando lembro…:


 

- Brasileiros! (iqui!) Depois de tanto tempo, de tanto sofrimento, vocês ainda mantém o sentimento estático de uma nação (iqui!) colonizada! Nossos políticos apresentam suas caras de pau na televisão, mesmo que nem suas esposas (iqui!) os suportem mais! Eles mal se aguentam na frente de um espelho, tanta sujeira (iqui!)! A corrupção é descarrada, o deslecho, a falta de (iqui!) vergonha, e você, o que faz pobre brasileiro? Nada! (iqui!). Continua imóvel ao tempo que passa, a verdade que grita, as crianças que choram! (iqui!) Acredita que votar em qualquer candidato com um rosto bonito estampado naquele papel que você retirou do chão (iqui!) é certo, por que não faz diferen(iqui!)ça, “são todos ladrões mesmo!”. Faz, Brasileiro, você faz diferença! Cada um de nós (iqui!) tem poder de mudança, de alterar a história desse país e verdadeiramente mostrar que temos orgulho (iqui!) de ser quem somos! Votemos com consciencia, dignidade, e, acima (iqui!) de tudo, cobremos resultados de nossos representantes, lutemos, lutemos pelo i(iqui!)deal dessa (iqui!) causa(iqui!)…. (iqui!) (iqui!) (iqui!) (iqui!)…….

 

Era noite no Guaruja e todos os passantes pararam para escutar meu breve e embriagado discurso. Não terminei exatamente como queria, mas na realidade também já não conseguia articular uma frase coesa sem soluçar.

 

Por um segundo, todos pareceram assustados. Eu ainda os observava de cima do banco do calçadão, esperando alguma reação dos rostos sem nome, de brasileiros preguiçosos tanto quanto eu. Não sei bem o que. Até naquele momento hesitavam em agir. Talvez eu achasse que algum lunático subiria ao meu lado e gritaria “Apoiado!!”, mas só depois me dei conta que eu era o único que tinha vinho no estomago, ou seja, estava propenso a fazer cretinices, como um discurso político em pleno verão.

 

De qualquer forma, o primeiro instante passou… Aquele em que todos pareciam ter compreendido e assentido, dispostos a mudar suas rotinas e vidas. No seguinte, alguns risos e suspiros de impaciencia, acompanhados pelo som dos passos de meus ouvintes partindo ou indo me disseram que o movimento revolucionario tinha começado e terminado antes de eu me eleger.

 

Derrotado, desci do palanque, chutei meus amigos tão embriagados quanto eu, que agora se encontravam no chão em ataques de riso, e parti cantando um funk sujo como o vento e a corrupção.   

Placas

Sunday, September 18th, 2005

Engraçado.


 

Talvez de tanto filosofar eu tenha ficado cansado. O exercício de dissecar a vida me parece cada vez mas ingrato.

 

Meus Deuses mudam de posição e utilidade, me ensinam coisas novas e eu esqueço tudo. Os amores se alternam na barriga sarada de uma desconhecida do cursinho, na Laura, 22, dançando encima do tablado do Clube Z,  numa garota sentada em banco qualquer, quieta e serena, chamando meu coração roubado para junto do seu, mesmo sem saber meu nome. Cada sonho tem para si dois braços e duas pernas e eles lutam (muito) entre si, para descobrir quais são meus favoritos. Todo dia tem vencedor novo. Amo meus amigos até quando os odeio, tento fingir que as amizades são pra sempre, como as árvores. Faço e desfaço, rezo e não rezo, mudo e não mudo. A vida se reiventa todo dia e eu perco e não perco meu tempo quando penso sobre isso e sobre ela.

 

Tudo porque ela começa a se despir e eu vejo cada vez menos em cada vez mais. É tudo tão simples e nossa alma tão complicada. A existência humana parece ter como regra deixar o mundo como um labirinto de espelhos, mesmo quando podemos escolher viver em uma estrada de mão única, com três placas:

* Um desenho garranchado, de uma mãe segurando um bebê, feito infatilmente com giz de todas as cores. O nome é “NASCIMENTO” e indica que começa agora sua viagem.

 

* Uma seta posicionada de forma vertical, preta, num fundo branco. O nome é “SIGA EM FRENTE E NÃO OLHE PARA TRÁS”. Aparece de tempos e tempos, normalmente entre uma grande subida ou descida.

 

* … Como será a placa no final da estrada da vida?

Voar

Thursday, September 15th, 2005

Sempre sonhei
em voar. Não como um passageiro perdido em seus sonhos e muito menos como um piloto, que se pergunta todo dia, “Será que vai chover?!”. Ele, o piloto, acorda de manhã, toma seu café e vai ao trabalho, o brincar de fingir de voar. Ele gosta mais ele apenas acha que voa. Atravessa as nuvens, cumprimenta o pôr-do-sol e sente a doce e leve sensação no momento em que sobe. Seria tolice chamar isso de voar, seria sonho e ilusão. Ele meramente sai do chão, é isso.

Sempre sonhei em voar. Como uma coruja em uma noite fria, ou uma águia em seu belo mundo lindo e fácil. Livre, planando e mergulhando quando me desse na telha. Subindo e sentindo que a vida nada mais era do que aquele momento estonteante. O sol em meu rosto, o vento em minha pele ou minha voz gritando de alegria. Rá, você não pode sentir isso?! Pense por um segundo, como seria voar.

Mais ao invés de voar, eu sempre corri. Corri, lutei, chutei, pulei, nadei, arremessei, saquei, venci e perdi. Enfim, busquei no esporte aquilo que Deus não me deu de graça, a adrenalina. E toda vez  que eu me provava e me testava, sentia essa adrenalina. Sentia novamente vida em mim. Cansado, por vezes “morto”, mais ainda sim mais vivo do que nunca. E isso foi bom, foi muito bom, mais não foi o suficiente. Porque eu sentia a adrenalina de viver, mais não a de voar.

Hoje eu voei. Não quando descia a rua de bicicleta. Não quando eu abri os braços buscando uma liberdade abstrata, muito menos no momento em que fechei os olhos e senti um pouco da adrenalina. Uma mulher, o chão molhado, eu desviei. Mais o caminhão não desviou de mim. Ele me acertou em cheio, seguindo seu rumo e trajeto sem preocupação ou problemas, apenas seguindo, até ser interrompido por uma bicicleta e um garoto. Dois opostos se atraem, se chocam e aí, eu voei. Pela rua, pelos carros e por minha vida, voei em um curto espaço de tempo até encontrar o bom e velho chão, velho companheiro de guerras. Estatelado na rua.

Hoje eu posso voar mais te invejo. Você que corre, luta, chuta, pula e nada, arremessa e saca, vence e perde. Enfim, vive. Você que sente o que eu senti um dia, sente a vida e a dor pelo esporte. Recebe a adrenalina, o cansaço, e a sensação prazerosa de poder superar seus limites e seus medos, fazendo com que cada momento seja melhor e melhor. Sim, eu te invejo.

Hoje eu posso voar, e sei que você me inveja. Porque eu vôo, e sinto o sol em meu rosto, o vento em minha pele e escuto minha voz gritando de alegria. Sinto a adrenalina máxima de planar, subir, descer e mergulhar, sabendo que mais nada no mundo e tão importante quanto o simples fato de estar ali, no ar. Infinitamente livre em meu infinito mundo de sonho, infinitamente feliz em meu infinito destino. Infinitamente preso em minha finita vida real em uma cama de hospital. Finitamente em coma, voando enquanto o céu não me leva e a vida não me traz ao chão.

Hoje eu posso voar.

Controle

Tuesday, September 13th, 2005

Aqui estou novamente, vulnerável. Meu corpo é uma massa disforme, tentando se ajustar a esse mundo caótico. Os olhos fingem ver por entre penumbras e sonhos, mas não vêem. As orelhas fingem escutar por entre a confusão de barulhos do mundo, mas são surdas perante a tantos gritos de desespero. Minhas mãos pensam tocar e sentir, mas na verdade apenas esmeram o que a alma sente. Sou um fantoche sobre julgo do vento, um boneco de palha controlado pelo coração. Minha alma busca uma paz inalcançável, nada posso fazer além de aguardar…


 

Aguardar talvez um furacão vindo não se sabe da onde, esperar que uma guerra cai do céu não se sabe porque, ou quem sabe, algum político maluco com síndrome depotísta resolva organizar uma repressão de massas paulistas, não? Porque essas e tantas outras coisas simplesmente fogem do meu controle. Posso colocar meu pé para fora de casa, arriscar atravessar a rua numa faixa de pedestres e com farol verde para mim, mas mesmo assim nada me dá garantias de que o prédio não vai cair, de que um carro não vai me atropelar. Parece-me que todo sentido de controle é uma ilusão, não controlamos nada, nem mesmo nossa respiração, nem a pulsação de nossos corações, que disparam ou param ao seu bel prazer.

 

Mas nem por isso vamos apenas sentar e aguardar, como plantas mudas e frágeis (mesmo que ainda sejamos), pedras sólidas porém burras, estátuas belas mas sem paixão. Levantemos, arrisquemos, lutemos. Porque o grande sal da vida está em confrontar esse mundo as vezes insólito, que pode nos tragar do nada, tirar-nos tudo em segundos e ainda sim ser doce, como o fim de tarde no parque, em um simples banco branco banhado pelo sol, tomando sorvete e olhando para um menino alheio ao tempo, enquanto ele aprende a andar de patins, tentando se equilibrar forte em oito rodas. Talvez com essa visão, enfim compreendemos que aquela inocência sem medo deve temperar o resto de nossas vidas. Cair, levantar, cair, levantar, rindo e chorando, andando de patins e vivendo. Simples assim. Secando as lágrimas, nem que seja com a dor do asfalto, com o vento de uma descida, quando finalmente comandamos as oito rodas e sentimos o poder sútil e ilusório do controle.  

Nada demais

Sunday, September 11th, 2005

*

Sei que estou vivendo um momento especial quando sinto falta da trilha sonora.


 

*

Todas as idiotices que eu cometo são na realidade testes do meu lado burro em meu lado racional. Eu sei que não vai dar certo, mas mesmo assim eu faço por osmose.

 

*

Sou um apaixonado, fánatico e anarquista, mas não tenho amor, causa ou Marx. Tenho tudo para ser o que quero… Só que eu não quero nada.

 

*

Minha bicicleta não é a extensão de meu corpo, meu baixo não se iguala ao som de uma tempestade. Tudo que eu escrevo não passa daquilo que escrevo e os dias são realmente iguais. Porque filosofar com algo tão simples como a vida? Porque fechar os olhos e deixar que nossa mente nos iluda, enquanto na realidade podemos ficar de olhos abertos e ver a verdade, nua e crua?

 

*

Engraçado com o som da cidade as vezes lembra o som do mar. Um zumbido grave, unido e prolongado, que foge de nossas mentes quando estamos por demais mergulhados na rotina.

 

*

Andar pela cidade usando um walkman é maldade. Perdemos os barulhos, as vozes, a chance de alguém nos parar na rua e simplesmente perguntar a hora. É se trancar em um mundo sonoro que não existe, fugir de uma realidade barulhenta, mas coesa. Querer viver com música de fundo, como se isso fosse justo. O silêncio é o mais justo dos sons. Traz a verdade a tona, a declaração dos apaixonados, o grito inflamado de raiva.

Furacão Katrina

Sunday, September 4th, 2005

*         

Em verdade, não somos nada. Embrião, bebê, criança, adolescente, adulto e finalmente velho. Independente da fase em que se encontra, mesmo sendo detentor de qualquer título de nobreza, para extrapolar digamos Imperador, para inferiorizar digamos um mendigo, o homem está fadado a se tornar inútil, pequeno e ínfimo diante da força inescrupulosa da natureza.


 

Como referência, posso abrir um jornal no café da manhã desse domingo e observar atento nas páginas principais à nação mais poderosa do mundo, o umbigo capitalista do mercado econômico, o centro das decisões mundiais, enfim, os EUA, chorar, sofrer e até pedir ajuda a União Européia, porque a calamidade foi grande demais para seu poder imperialista. É claro que estou falando do furacão Katrina, que atingiu o sul norte americano e causou uma devastação notável na cidade de Nova Orleans.

 

PIB, forças armadas, bomba nuclear, subsídios, preconceito, guerras, nada disso foi capaz de parar os ventos de
216 Km/h, as tempestades e inundações que destruíram a cidade que possuía cerca de 1,4 milhões de habitantes. Ela se encontra agora em estado calamitoso. Milhares de pessoas conseguiram fugir a tempo de não ver os vidros estilhaçados, os corpos afogados no chão, o choro imperdoável das crianças, mas a população mais pobre teve de ficar e enfrentar como pode a situação.

 

Não importa quanto tempo passe, enquanto estivermos vivendo sobre este chão, usufruindo dos recursos irresponsavelmente, não tomando medidas preventivas, sofreremos para sempre dos braços imperdoáveis da natureza e do caos. Seja na pobre Guiana Francesa, seja no rico EUA, pagaremos em dobro pelos erros que cometemos ontem, hoje e provavelmente, amanhã.

 

*

Mas incrível do que essa manifestação de poder vinda não se sabe da onde, é a burrice do homem. A mídia cansa nossos ouvidos e olhos dizendo sobre os saques, mas não comenta que são atrás de comida. Relata incoerência de multidões, mas não diz que os sobreviventes não recebem informações sobre pra onde vão, quando vão e sobre onde estão os familiares perdidos. Olhamos estarrecidos para as imagens, mas mal sabemos que o verdadeiro furacão que acabou com a cidade de Nova Orleans é o furacão da corrupção, do preconceito, da irresponsabilidade política, muito anterior a esse de agora. A cidade já enfrentava calamidades muito piores, como uma média de 300 assassinatos por ano, uma polícia local opressora, a velha luta de classes com vitória da massa rica e desgraçada.

 

Ou abrimos os olhos e enxergamos um governo sujo e imperialista, que ignorou a informação do furacão datada pelos cientistas em 2001 (afinal eles tinham uma guerra para inventar) ou infelizmente vamos continuar vivendo na escuridão. Não sei de quem tenho mais medo, se do homem ou da natureza. Na dúvida, dos dois.

 

Fontes:
http://www.midiaindependente.org/en/blue/2005/09/328723.shtml

http://br.news.yahoo.com/050829/5/wz8k.html

http://www.mst.org.br/informativos/minforma/ultimas1105.html