Deixamos o Volpatis na casa dele. Indaguei pro piloto:
- E ae, pra onde vamos?
- Não sei!
- O Sagula não tava descendo a rua? Vamo atrás dele, lá no ponto de onibus, depois a gente resolve…
- Beleza.
Encontramos o cara. Todo arrumando, parecia ter arrumado um emprego:
- Eae meu! Tá indo pra onde?
- Se não sabe, arrumei um emprego!
- Caralho, parabéns velho! Aonde?
- Na VASP, to indo pra lá agora!
- Calaboca, entra ai no carro que a gente te leva.
- Demoro.
E lá fomos nós, ouvindo música alta, conversando sobre a ascenção social de nosso amigo Raphael Sagula, “Ficaram só 24 candidatos, eles vão me dar um blábláblábláblá (essa é a parte da conversa em que ele nos diz o que ia fazer lá, eu não entendi muito bem, só que era alguma coisa médica)”. Papo vai, papo vem, resolvo:
- Já sei, vamo ali naquela churrascaria de R$ 10,90, to cheio de vale aqui, demoro.
- Tá, a gente deixa o Sagula na VASP, espera ele sair e depois almoçamos.
Desceu o responsavel, o resto teve que dar uma volta enorme na 23, por que estacionamento ali perto nem pensar. É claro, erramos umas duas entradas, fecharam a gente três vezes, a chuva caia insuportável, a música causando, mas tudo sobre controle (ainda). Voltamos para entrada da VASP, e cade Sagula? Nada de Sagula. Foi então que eu tive a idéia brilhante:
- Escuta, me deixa aqui esperando ele e vai buscar seu irmão no colégio.
- Tá bom, pode ser.
Vou até a entrada do négocio, me ajeito num daqueles bancos de madeira, e aguardo. Aguardo. Aguardo. Aguardo.
Continuo aguardando.
Então me cai a ficha que o moço responsavel pode ter ido embora. Converso com segurança, recepcionista do primeiro andar, recepcionista do segundo andar, gostosa esperando do meu lado só deus sabe o que, e nada de saberem onde estava meu amigo Sagula. Eis que o telefone toca, com número não cadastrado:
- Alô?- Digo com medo.
- Alô? Lucas, é a Monica (Mãe do Paim, Piloto). Deixa eu falar com ele…
O sangue arde nas veias, a razão se esconde no interior do medo, a lei de murphy parece do meu lado, ascenando e sorrindo amarelo.
- Ele não tá comigo não…
- Não?
- Eu to aqui em casa…
Boom. Capfut. Ezquizabat.
- Como assim! Vocês não iam almoçar numa churrascaria?
Caguejo, respiro fundo, tento entender o tamanho da cagada recém-cometida.
- É, então, vamos sim. Ele vai passar aqui e nós vamos!
- Não! Não dá! Eu tenho que ir buscar a tia dele, quando ele chegar diz pra me ligar, rápido.
- Tá bom…
E quando as coisas começam a dar errado. Eu minto pra mãe do moleque, não acho o Sagula, o Paim não chega nunca. A chuva começa a apertar, o celular não tem crédito… O celular… Tá tocando, é a mãe do Paim. Olhei pro meu Nokia incrédulo, incapaz de antender, ou de desliga-lo. O que fazer? E os minutos passam, e passam. Me resta, sem dinheiro, sem crédito, sem ação, sem segurança, aguardar.
Eu aguardo. Aguardo. Aguardo. E nada do Palio preto cruzar a esquina.
E o celular inquieto continua a tocar. E toca, e nada do Paim. E continua tocando, e nada do Paim. E continua me lembrando que eu menti pra mãe do moleque, e nada do maldito Palio preto aparecer pra me tirar da chuva.
Busco meu amigo Sagula:
- Então, eu deixei um amigo meu aqui, agora pouco, fiquei de dar carona pra ele.
- Mas ele venho fazer o que aqui?
- Ah… Era alguma coisa médica.
- Alguma coisa médica?
- Não sei bem… Ele passou num teste, ficaram umas 24 pessoas.
- 24 pessoas?
- É, alguma coisa de admissão. Não sei bem.
- To vendo.
- Atestado médico, sei lá.
- Atestado médico?
- Desencana. Ele tá de azul, calça preta, uma pasta preta na mão, você viu.
- Não.
- Opa, agradecido.
Um consolo. Sagula aparece:
- Cara, tenho um monte de coisa pra fazer. Fono e o escambal. Tenta me chamar se conseguir…
- Tudo bem…
Ainda assim, o celular continua tocando, buscando informações sobre um filho perdido, e nada do Paim aparecer. Começo a dar risada da desgraça, é o que me resta.
Porque menti? Não sei, nem foi bem eu. Pensei no momento que seria uma enrascada pro moleque se sua mãe soubesse da carona, mas não era. Não tinha problema algum. E mesmo assim alguma coisa dentro de mim gaguejou e ao invés de eu dizer “VASP” eu disse “Casa”, e ao invés de agir como um homem e atender o telefone, fugi medroso, depois de ludibriar tão querida pessoa, a Monica.
Olhei pro Nokia, disse “seja forte”, e atendi:
- Alô?
- Onde você tá?
- Paim??!
- É, porra! Você mentiu pra minha mãe velho?
- Nossa, que fita.
- Causou… Seu burro! Eu to tentando te ligar faz 30 minutos e você não atende…
- Pensei que fosse ela, não sabia o que falar…
- To chegando ae, sai da chuva.
Já tava ensopado mesmo.
Moral da história: sentamos, comemos e ficamos felizes, depois de milhares de estripulias e maluquices, enfiamos carne até no rim. R$ 10,90.