Archive for October, 2005

Thursday, October 27th, 2005

Vivendo aquelas típicas crises adolescentes onde nada parece encaixar. O ano passou, as chances passaram, as pessoas passaram e você parece ficar. A solidão não incomoda, e sim o esquecimento. Queremos a imortalidade em nossas ações e palavras, a vida é finita demais para acabar de um dia para o outro. Mas os dias passam, as coisas passam, as aves passam, e nem sempre passamos também.

Meu remédio para tempos confusos como o parágrafo acima é reclamar. Reclamo mesmo. Como um velho caquético, sentado numa cadeia de praia, impotente e cego. Encho o saco de todo mundo com perguntas ambiciosas e por vezes sem resposta, só para ver que não apenas eu estou circundado pela neblina da incerteza. Faça isso com gosto, até me mandarem parar ou me convencerem de que reclamar não é a solução. Como aceito provocações e sou cabeça dura, que martírio para os meus semelhantes, que convivem comigo numa mesa de sinuca, numa carteira de cursinho, no sofá aqui de casa.

Não escrevo mais. Leio pouco. Rio muito. Estudo, mas nunca parece suficiente. Faço amigos, atiro olhares, sonho e deixo-me aos devaneios. Espero que essa imobilidade que contagia cada grama de meu corpo passe com a passagem do vento, passe como tudo, porque tudo passa, tudo passará.

 

Sunday, October 23rd, 2005

Não quero o amor dos reprimidos
Velados por seus olhares escondidos
Não quero o amor dos inseguros
Assustados por seus sentimentos obscuros
Não quero o amor dos hipócritas
Fingindo ser quem não são.

Quero mas um caixão
Onde acolheria todas essas almas insólitas
Selaria os com suas idéias sobre essa vida mesquinha.
Enterraria os num mar de consciência partida.
Até que gritassem por arrependimento
Só assim eu estaria satisfeito.

 

Em busca do Rodizio

Tuesday, October 18th, 2005

Deixamos o Volpatis na casa dele. Indaguei pro piloto:
- E ae, pra onde vamos?
- Não sei!
- O Sagula não tava descendo a rua? Vamo atrás dele, lá no ponto de onibus, depois a gente resolve…
- Beleza.

Encontramos o cara. Todo arrumando, parecia ter arrumado um emprego:
- Eae meu! Tá indo pra onde?
- Se não sabe, arrumei um emprego!
- Caralho, parabéns velho! Aonde?
- Na VASP, to indo pra lá agora!
- Calaboca, entra ai no carro que a gente te leva.
- Demoro.

E lá fomos nós, ouvindo música alta, conversando sobre a ascenção social de nosso amigo Raphael Sagula, “Ficaram só 24 candidatos, eles vão me dar um blábláblábláblá (essa é a parte da conversa em que ele nos diz o que ia fazer lá, eu não entendi muito bem, só que era alguma coisa médica)”. Papo vai, papo vem, resolvo:
- Já sei, vamo ali naquela churrascaria de R$ 10,90, to cheio de vale aqui, demoro.
- Tá, a gente deixa o Sagula na VASP, espera ele sair e depois almoçamos.

Desceu o responsavel, o resto teve que dar uma volta enorme na 23, por que estacionamento ali perto nem pensar. É claro, erramos umas duas entradas, fecharam a gente três vezes, a chuva caia insuportável, a música causando, mas tudo sobre controle (ainda). Voltamos para entrada da VASP, e cade Sagula? Nada de Sagula. Foi então que eu tive a idéia brilhante:
- Escuta, me deixa aqui esperando ele e vai buscar seu irmão no colégio.
- Tá bom, pode ser.

Vou até a entrada do négocio, me ajeito num daqueles bancos de madeira, e aguardo. Aguardo. Aguardo. Aguardo.

Continuo aguardando.

Então me cai a ficha que o moço responsavel pode ter ido embora. Converso com segurança, recepcionista do primeiro andar, recepcionista do segundo andar, gostosa esperando do meu lado só deus sabe o que, e nada de saberem onde estava meu amigo Sagula. Eis que o telefone toca, com número não cadastrado:
- Alô?- Digo com medo.
- Alô? Lucas, é a Monica (Mãe do Paim, Piloto). Deixa eu falar com ele…

O sangue arde nas veias, a razão se esconde no interior do medo, a lei de murphy parece do meu lado, ascenando e sorrindo amarelo.
- Ele não tá comigo não…
- Não?
- Eu to aqui em casa…

Boom. Capfut. Ezquizabat.
- Como assim! Vocês não iam almoçar numa churrascaria?

Caguejo, respiro fundo, tento entender o tamanho da cagada recém-cometida.
- É, então, vamos sim. Ele vai passar aqui e nós vamos!
- Não! Não dá! Eu tenho que ir buscar a tia dele, quando ele chegar diz pra me ligar, rápido.
- Tá bom…

E quando as coisas começam a dar errado. Eu minto pra mãe do moleque, não acho o Sagula, o Paim não chega nunca. A chuva começa a apertar, o celular não tem crédito… O celular… Tá tocando, é a mãe do Paim. Olhei pro meu Nokia incrédulo, incapaz de antender, ou de desliga-lo. O que fazer? E os minutos passam, e passam. Me resta, sem dinheiro, sem crédito, sem ação, sem segurança, aguardar.

Eu aguardo. Aguardo. Aguardo. E nada do Palio preto cruzar a esquina.

E o celular inquieto continua a tocar. E toca, e nada do Paim. E continua tocando, e nada do Paim. E continua me lembrando que eu menti pra mãe do moleque, e nada do maldito Palio preto aparecer pra me tirar da chuva.

Busco meu amigo Sagula:
- Então, eu deixei um amigo meu aqui, agora pouco, fiquei de dar carona pra ele.
- Mas ele venho fazer o que aqui?
- Ah… Era alguma coisa médica.
- Alguma coisa médica?
- Não sei bem… Ele passou num teste, ficaram umas 24 pessoas.
- 24 pessoas?
- É, alguma coisa de admissão. Não sei bem.
- To vendo.
- Atestado médico, sei lá.
- Atestado médico?
- Desencana. Ele tá de azul, calça preta, uma pasta preta na mão, você viu.
- Não.
- Opa, agradecido.

Um consolo. Sagula aparece:
- Cara, tenho um monte de coisa pra fazer. Fono e o escambal. Tenta me chamar se conseguir…
- Tudo bem…

Ainda assim, o celular continua tocando, buscando informações sobre um filho perdido, e nada do Paim aparecer. Começo a dar risada da desgraça, é o que me resta.

Porque menti? Não sei, nem foi bem eu. Pensei no momento que seria uma enrascada pro moleque se sua mãe soubesse da carona, mas não era. Não tinha problema algum. E mesmo assim alguma coisa dentro de mim gaguejou e ao invés de eu dizer “VASP” eu disse “Casa”, e ao invés de agir como um homem e atender o telefone, fugi medroso, depois de ludibriar tão querida pessoa, a Monica.

Olhei pro Nokia, disse “seja forte”, e atendi:
- Alô?
- Onde você tá?
- Paim??!
- É, porra! Você mentiu pra minha mãe velho?
- Nossa, que fita.
- Causou… Seu burro! Eu to tentando te ligar faz 30 minutos e você não atende…
- Pensei que fosse ela, não sabia o que falar…
- To chegando ae, sai da chuva.

Já tava ensopado mesmo.

Moral da história: sentamos, comemos e ficamos felizes, depois de milhares de estripulias e maluquices, enfiamos carne até no rim. R$ 10,90.

14/10/05

Saturday, October 15th, 2005

Meu dia começou com uma tentativa de superação. Explico: o celular tocou, emitindo aquele ruído imbecil, que vai aumentando e aumentando, até que nada resta além apalpar ao lado de minha cama, em busca do desgraçado. Eis que a captura acontece… Eu fecho um dos olhos para poder enxergar através do embaçado e leio duas opções; “Parar” e “Sonequinha“. Perae! Aja inocência! Achar que uma pessoa que acabou de acordar não vai apertar “sonequinha”… E lá vou eu, aperto-lo, mais dez minutos de sono leve, ele toca, “sonequinha” nele, mais 10 minutinhos (sempre são inhos né) … Até que o toque muda, vira Linkin Park, me avisando que a carona está lá embaixo esperando e eu na cama. Maravilha. Corre filha da mãe.

E essa maldição do sono se arrasta no timbre de voz e andar calculado dos professores, no giz riscando a lousa do cursinho com aquele barulho irritante. Quanta monotonia, quantas piadas sem graça, quantos avisos sobre vestibular, quanta pressão. Com os olhos quase cerrados, tento distinguir relações bióticas entre as espécies, resolução de sistemas, definição de determinante, Costa e Silva, seguido de Sarney. Enquanto isso, “love’s in the air”… Cantamos essa composição antiga como o vento para os casais que cercam nossa ilha de solteiros (Bruno Volpatis, Painsis, eusis). Que pegação! Como se mais nada houvesse, só a orelhinha do namorado, a bochechinha do namorado… Enfim, as “coisinhas” do namorado! Quanto amor, quanta juventude, quantas mulheres novas e sem graças! Quanta alegria nesse cursinho bentido de Deus! Uh! Biju, diversão garantidissima, desde as aulas inesquecíveis do Professor Nogueira, passando pelos momentos nos bancos do pátio, para chegar finalmente na mesa de bilhar do Bodega’s.

Contra minha vontade, hoje estava na pegada do hospital. Era chegada a hora de minhas amídalas mostraram que vieram ao mundo apenas para causar-me dor. Dor ao mastigar, dor ao beber, dor ao perder a tarde dentro de um hospital. Tentei evitar toda situação alegando uma afta, mas não teve jeito. Entrei na abóbada do prédio bege, meio rebelde, sempre, trajando a camiseta amarela “Eu vou pra Porto Seguro“, cabelos revoltadíssimos, olhar curioso, um jovem destemido, com sua carteirinha do plano de saúde em uma mão e o R.G na outra. Usei a velha fórmula do sorriso no rosto e como sempre as portas pareceram se abrir por mágica… Mulheres ensaboadas estenderam um tapete vermelho, levaram minha mochila, me oferecem glamour e felicidade em Orange County, ao lado de Marisa Cooper, Summer e etc. Mas recusei, tinha a garganta em brasa, só queria que resolvessem isso e me deixassem partir

Uns 20 minutos depois, já tinha adentrado um pouco mais naquele lugar cheirando a higiene. Saquei o celular do bolso e resolvi fazer as ligações do dia, para os aniversariantes, ambos engraçadamente distantes de minha vida, Ana e Rafael. Primeiro o irmão… Não atendeu, sumiu. Depois a fofa, felicidades, papapá, balada hoje, VIP?, vou ver, vou ver, beijão, tudo de bom e, enquanto fazia a terceira ligação, lindíssima, Nah, demasiadamente preocupado com problemas imbecis como baladas, academia e trabalho, me assustei ao ouvir a porta de plástico próxima à mim sendo aberta por uma maca. Ela apareceu flanqueada por três enfermeiros e um senhor aparentando uns 150 anos deitado, gesticulando e tentando falar. Parecia não ter mais forças para um espirro. Tudo que me indignava naquela hora pareceu pequeno, morrinho, diante da enorme pirâmide egípcia que a morte e a velhice configuravam naquele rosto. Esses dois elementos, presentes em nosso interior desde o instante em que nascemos, brilharam infinitos nos olhos melancolicos daquele velho, que passou sem dar seu nome e nem um pingo de esperança. Olhei solitário para o chão, ensaiando uma prece. Mas nem todas as orações do mundo pareciam tirar de minhas costas o peso da juventude, que eu desperdiçava com argumentos pueris e preocupações tolas. 

Agora estou sentenciado, pela palavra REPOUSO, pelo amor de materno e pela chuva paulistana. Restou me escrever e reclamar, nesse cansado blog meu.

Monday, October 10th, 2005

Ternura

Vinicius de Moraes


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
                                                                     [ extático da aurora.

Poemas

Wednesday, October 5th, 2005

“Mãe!”

Mãe! Você me pede para ter esperança
Mas em que depositar esse resquício de lealdade?
Políticos maletados e acusados, fadados a comilança?
Mendigos armados e amordaçados pela sociedade?

Mãe! Você me pede para ter fé
E em qual Deus você quer?
Buda, Espírito Santo, Alá?
Não ve que todos me levam pro mesmo lugar?
Me levam todos pro lado de lá,
E eu quero é ficar.

Mãe! Você me pede para ter sonhos
E eu os tenho em demasia!
Mas são tantos, e tão intocavéis…
Tenho medo que você ria …
Mesmo eu os acho sem cor.

Mãe! Você me pede para ter amor
Ah! Não ve que isso jorrá de mim?
Nas mulheres passantes e passavéis.
Naquelas que eu amo e são intragavéis.
Barrigas eretas e cabelo cheirando jasmim
Ai! Elas são o meu fim…

Mãe! Perdoe este teu filho descrente!
Mas o mundo se apresenta tão diferente…
Nada mas se encaixa com dantes, como na infancia.
Todas as formulas me são incoerentes e sem elegancia.
Por isso vou cantando e andando, duvidando e amando
Até que a vida se acerte, como um rélogio louco e coerente.

Mãe! De certo sei que isso só acontece uma vez!
Quando o cuco para de cantar as seis!
E as rosas se apresentam infinitas na memória!
O rio parou seu curso e corrente,
Porque a morte fez-se novamente presente.

“Uma Carta”

Talvez o frio e o silêncio dessa noite
Pudessem acabar com o vazio
De não ter um amor para sofrer
Sofrer sozinho, por não ter um motivo.

Não quero mais a paz e segurança
Dos incautos e ingratos mal amados
Essa calmaria em meu mar é harmoniosa
Mas não é disso que se alimenta a paixão

Ela nada mais quer além de tempestades
Onde cada gota caída do céu é composta de meu choro
E cada confusão de trovão nesse véu noturno
É o som do meu riso.

Levantar-me-ei dessa cadeira vazia
E seguirei constantemente com meu vazio
Por entre as ruas e becos da minha cidade
Invariavelmente pela chuva, sozinho.
 
E no chão, molhada e cansada.
Estará jogada a tua carta.

Promete que nela tem teu endereço?
Mulher ainda sem nome.
Jura pra mim que essa noite eu não estarei
Vagamente vazio, perdidamente perdido.

Sem orgulho

Monday, October 3rd, 2005

Hoje, eu não tenho orgulho de ser brasileiro.

* Observo estático enquanto deputados, senadores e ministros agem como se não os observassemos. Conspiram, mentem, subornam, roubam, mantendo a ineficiencia de um sistema político que não suporta pessoas honradas e bem intencionadas. Qualquer bom samaritano perderia o tino em meio a tanta lama e sujeira. As CPI viram murmurios no tele jornal, Lula compra votos para mais um incapacitado presindente da camaral, surgem mais pessoas roubando e menos pagando pelos erros. Sempre foi assim e se depender da minha geração, um dia mudará.

* Agora me vem querer resolver terremoto com cola Print. O referendo do dia 23 de outubro é uma tentativa ensolarada de mandar todos os problemas para debaixo do tapete, como se ele pudesse minimizar a criminalidade que assola o país, na forma de assaltantes, invasores “sem terra” e etc. Não pode. Vamos tirar as raras armas da população e devolve-las ao narcotráfico, incentivar o mercado negro de armamentos, estimular mais e mais policias corruptos. Esses sim, causadores do problema. Aplicando uma penera autentica e desmoralizante na nossa força policial pifia, poderemos começar a observar os crimes desaparecendo.

* A transposição do rio São Franscisco caminha com força rumo ao futuro, futuro que vamos minar e destruir tomando atitudes como essa, claramente ruins ao meio ambiente e boas para grandes produtores agricolas, compadrinhados de politicos. Pessoas moram a cinquenta metros do rio e ainda sim não tem condições de sobrevivencia. O tapete brasileiro é persa, daqueles grandes, porque é muita sujeira pra debaixo dele. Foi comprado a vista, dinheiro provido de mensalões e mensalinhos.

Mudança

Sunday, October 2nd, 2005

“Você não é mais o mesmo!”

Não, eu não sou. E você também não é.

Mas nem por isso eu cobro que haja como sempre agia, mantenha os mesmos argumentos, sorria com covinhas no queixo como antigamente. Talvez porque eu compreenda esse aspecto das pessoas: conceitos e atitudes mudam com o passar dos minutos, da horas, dos dias. Cobrar um cárater estático durante a vida é querer que o rio mantenha sempre igual volume, intensidade e formato por toda sua extensão. Sabemos que não podemos controlar a natureza. Assim é a força da mudança, incontrolável.

Se engana quem acha que hoje eu sou pior ou melhor do que antes. Eu não sou o de antes, sou outro. Não aceito comparações. Vivi muito mas do que ele, vi desgraças e alegrias que mudaram as cores e os nuances. Meu passado foi enterrado com honras e flores, deixando lágrimas e saudade, além de um excelente book de fotos onde eu posso as vezes dar uma relembrada. Deixou também um caderninho minusculo, com algumas instruções… Sobre onde não errar, que acertos repetir e rascunhos, para me deixar em dúvida nos mais diversos assuntos. E cada dia sou um novo cara, atrás de novos sonhos e novas coisas.

Ainda que eu seja um paladino sem Deus, um romantico sem a amada, um anarquista sem ideal e um músico em busca não sabe bem de que melodia, deixe que eu viva. Independentemente se peco, rezo, salvo ou mato, essas são as escolhas que eu fiz e por isso mesmo são as melhores. É quando deixamos que os outros decidam por nós que perdemos nossa identidade. O book some, o caderninho some e o futuro, que parecia ali, tão perto e promissor, de longe acena e se despedi, pedindo perdão, sem no entanto ter outra opção…