Archive for November, 2005

FUVEST

Tuesday, November 29th, 2005

Palmeiras. Sentado naquela carteira, no SENAC Santo Amaro, aguardando a famigerada prova, eu observava as palmeiras do lado de fora, através das janelas. Pernas cruzadas, mão no queixo, faltavam alguns bons minutos para o ínicio do teste. Sofria de ansiedade, mal daqueles que chegam muito adiantados aos compromissos. Os minutos corriam devagares, mesmo que eu quisesse adianta-los.

Então, olhava para as palmeiras. Balançavam com o vento, quebrando o silêncio. Como elas chegaram ali? Será que vinham da Bahia? Porque não pinheiros, cedros, castanholas? Porque palmeiras? Sua forma alongada nem era tão bonita, seu verde nem tão intenso. Talvez a escolha tivesse ligação com o barulho de suas folhas, que acalmavam nossas mentes. Ou, talvez por pura ironia: nós, trancados em luxuosa sala, almejando o calor das praias e o frescor das águas, da terra natal daquelas árvores.

Ninguém falava nada, era quase um enterro. Mal se respirava naquela sala 20. Se eu fechasse os olhos, certamente não perceberia que estava rodeado de pessoas, tão ansiosas quanto eu, batucando os dedos na mesa ou enrolando os cabelos em cachos, mascando chicletes ou comendo chocolates diet.

Mas percebi que os olhos de todos, assim como os meus, estavam vidrados naquelas palmeiras lá fora. Pareciam a atração do dia, um espetáculo sem igual. Em verdade não havia nada demais, além daquelas três palmeiras rumorejando em favor do vento. Fiquei curioso.

Depois de pensar um bocado, resolvi que as palmeiras eram só um foco. Estavam todos olhando para dentro de si, buscando respostas, perguntas, mistérios e problemas. Quem sabe nem tenham reparado nas palmeiras. O cheiro de medo subiu de brusco, quando reparei que ninguém mas estava perdido em devaneios.

O fiscal de prova tinha entrado na sala, com um chumaço em mãos, ou nosso destino, sei lá, dependia do seu grau de desespero.

Thursday, November 3rd, 2005

Simplesmente chegou-me a vontade de escrever.

Começa mais uma vez novembro, quase encerrando o ano. Se você estivesse fazendo cursinho, como eu, cortaria essa palavra “quase” da frase anterior, por que a perspectiva de um vestibulando é ligeiramente diferente da normal. Ela é desesperadora. As chances parecem ter acabado, a matéria aculumado, as horas de estudo perdidas. Agora é o tudo ou nada, reta final. Uma prova, meras cincos folhas de exércicios, separam meu futuro em dois caminhos, três, talvez mais. Nesse último sprint, revejo momentos de minha vida e chego a uma conclusão estarecedora: nunca fui bom em momentos decisivos.

Sempre me faltou aquela chamada “estrela”, o passo a mais que serapa os preparados dos vencedores. Nos jogos decisivos do colégio, nos segundos que antecediam o beijo, nas palavras de despedida. Na tacada decisiva em uma mesa de sinuca, no lance final de uma partida de futebol, na curva de finalização da prova do DETRAN. A frase “não diga que é impossivel, que eu vou lá e te provo o contrário” é uma das minhas favoritas atualmente, mas no sentido ruim: mesmo quando parece muito pouco provavel, eu consigo falhar.

O vento trás, atravessando a janela de minha sala, uma lembrança… São as palavras de Cecília Meireles no poema “Epigrama N.°7″, quando diz que sua raça não vê graça em ganhar, que ela só quer passar, mas estranhamente isso não me serve de consolo. Tenho uma determinação escondida em algum ponto de meu corpo, desperta em alguns dias, adormecida em outros. No entanto, mesmo dormindo e sonhando ela não me deixa admitir ficar no caminho, não permite que eu sinta qualquer felicidade na derrota, mesmo vacilando quando eu mais preciso dela. 

Sigo lutando como o Ronin sem nome de quaisquer versos meus, que como tantos outros provavelmente nunca chegaram a luz do mundo. Tenho medo de um dia acordar e encontrar em minha cama alguém sem limites para vencer na vida, assim como igualmente temo chorar ao ver meus olhos sem esperança no espelho, depois de lavar o rosto de manhã.

Medo, medo de enfrentar o mundo e as expectativas que cada folha, lágrima, ente e amigo querido depositam em mim. Será que algum dia me perdoaram, esses que me amam tanto, por fraquejar diante de mais esse momento? 

*Nunca vou entender qual é o motivo da estática, quando podemos simplesmente estar correndo. Tudo é tão simples no momento que antecede a quebra de nossos limites… É só uma questão de parar ou continuar.”

“Queimem meus escritos e documentos/Coloquem fogo em tudo que um dia foi meu/Nada disso importa mais agora que abraço/Essa condição nova de ave de rapina/Em que vôo por léguas e léguas a fio/Sem me importar com os ventos que passam por mim.”