Deixei que a chuva caísse sem peso em meu rosto, numa tarde antes ensolarada de maio. Caminhava sobre o meio fio de uma rua paulistana em passos lentos, medidos, todos ausentes do sólido concreto aos meus pés. Compenetrado, pensava em momentos antigos, enquanto as casas e ruas passavam rapidamente por mim. Quem me olhasse naquele instante poderia pensar, “Quem é esse garoto molhado e que parece ponderar sobre a vida?”. Se me dessem à oportunidade de responder, eu diria “Não sei. Mal estou aqui, para falar a verdade. Me encontro perdido em outros tempos”.
É por que não tinha nada de interessante para fazer em meu quarto, e acabei não resistindo à vontade de pegar minha antiga bicicleta e dar algumas voltas, perdido. Fatídico destino: a bicicleta estava com os pneus furados. Restou-me, acompanhado do inesperado, fechar a porta de casa e dar com minhas solas por ai. Não contava com a chuva. E se contava em meu subconsciente, não ligava, sinceramente.
Andava alheio ao tempo. Tudo passava, se transformando. A vida, a cada segundo, soando de modo diferente, e eu, contido em meu caminhar lento, deixava que esse tempo não se alongasse em minha pessoa. Mantinha dentro de mim outra época, de reis e rainhas, de doenças e vitórias, de decepções e acertos. Pensava no que queria pensar, por quanto desejasse. Não havia ninguém para me incomodar com uma tarefa mundana, como lavar os pratos ou levar o cachorro para fazer xixi. Eu andava pelas ruas de São Paulo e, Deus do Céu, pessoa alguma se preocupa com o que você pensa as 3 da tarde.
Em dado instante, parei. A chuva não tinha se intensificado, mas minha aparência era a de um cidadão que acabará de sair do mar, que habitava muito longe dali. Eu tremia, entre os pés e os cabelos molhados. Uma batida incomoda se repeti, saída dos meu dentes. Cruzei os braços em uma ignóbil tentativa de me aquecer, e olhei para os lados para entender minha localização. Não fazia a mínima idéia de onde estava.
Acabei caindo, certamente, em um desses bairros de pessoas muito ricas, foi o que pensei na hora. Era incrível como o barulho da cidade se ausentava daquele lugar. O silencio tinha se instalado, cortado apenas pela chuva que gotejava nas folhas e flores de um parque muito agradável, que ficava em frente às casas. Olhando mais atentamente, algo naquele parque fez, por algum motivo inexplicável, minhas entranhas dançarem, e aquele conhecido frio na barriga chegar. A causa: um velho banco branco.
Normalmente, essas praças costumam possuir uns quatro ou oito assentos (sempre múltiplos de dois), mas aquela praça possuía apenas um. Ficava muito perto da calçada. Desgastado pela erosão do tempo (que agora se movia dentro de mim na forma de uma gripe), era até um pouco bonito. Deveriam caber bem umas seis pessoas, todas apertadas. Mas, mais curioso que aquele metido único banco de praça, era a garota que estava sentada nele.
Tinha os cabelos até o ombro, castanhos e cheios. Molhados, davam uma aparência rebelde à garota, uma beleza incerta. Os olhos lembravam duas estrelas prateadas, num rosto de pele branca e suave. Ela mordia um canto da boca, fazendo voltar aquele sentimento de incerteza. Vestida com uma simples malha verde, braços sobre as pernas, que levemente estavam arqueadas dentro de um jeans antigo. Parecia quase em sua sala, assistindo tv.
Há poucos metros dela, eu parecia não existir. Ela olhava perdida para o chão. Tremia um pouco também. Como eu anteriormente, ela estava alheia ao tempo e a mudança do mundo, compenetrada demais em seus pensamentos. Pensei em incomodá-la com perguntas desinteressantes, como nome ou “O que raios você está fazendo debaixo dessa chuva” (pergunta essa que eu não saberia responder). Mas pensei de novo. Sentei ao seu lado, num movimento completamente imprevisível da minha parte.
Foi quando a chuva parou.
Eu nunca acreditei em coincidencias. Quer dizer, o céu estava mandando-me um sinal? Aliens, talvez? Era toda uma conspiração então, eu e a garota? Por favor… Era loucura pensar dessa forma, mas nós não eramos exatamente exemplos de sanidade mental. Eramos dois pintos molhados, tristonhos, tomando chuva aparentemente sem motivo, além da insuportavel estática da vida, que as vezes me levava a fazer coisas inesperadas, sem razão. Sempre foi do meu fetio. Tomar a estrada oposta, subir a escada mais ingrime, surpreender até mesmo o cara que me olhava toda manhã no espelho. Era uma forma de manter contato com a vida, com as escolhas, os caminhos, sair da inevitabilidade do destino. Que destino o cacete… Eu tinha minha história nas mãos, não admitia acreditar que alguém poderia controlar isso.
Sentado, senti uma ansiedade ainda maior que dantes. Estava novamente no primeiro beijo de um garoto tardio, no primeiro show com a banda, no primeiro seminário na escola, aos pés do caixão de meu avô. Aquele frio intenso, entende? Sem dúvida, eram algumas pedras de gelo, acumuladas e enfiadas dentro de meu estomago por um daqueles médicos que sempre esquecem o bisturi, ali entre um rim e o outro. E o pior de tudo era não saber exatamente o motivo de tanta insegurança. Tá, sabia, mas não saibia o nome do motivo. Perguntei:
- Qual é seu nome? - tentei fazer a pergunta soar da maneira mais casual possivel, estavamos apenas num parque desconhecido, sentados desconhecidamente, chegando mas perto de uma pneumonia do que de qualquer romantismo.
- Livia… E o seu? - Os olhos dela me olharam, me olharam porque provavelmente tinham vontade própria, tal era sua profundidade, sua beleza, seu brilho, a forma com que eles conseguiram tocar em algum detalhe dentro de mim que ninguém nunca tinha conseguido.
- Lucas. Mas você pode me chamar de “Gato Molhado”… - alguém tinha que quebrar o clima de enterro.
Ela sorriu, não gargalhou, sorriu, e eu pensei que fosse desmaiar. Estava apaixonado. Liguem pra minha mãe, pra minha avó, digam que essa garota ensopada do meu lado direito tem algo de eterno, de perene, de especial, e que se eu perder a chance de casamento agora talvez nunca mais a consiga.
- “Gato Molhado”? Isso parece sala de bate-papo 15 a 20 anos… - ela disse olhando para o chão, aliviando o peso daquele olhar em mim, pobre rapaz desprevenido. Correspondi a simpatia.
- Temos uma piadista aqui? Achei que você estivesse chegando de um enterro.
- E estava… - ela não me olhou, e talvez fosse melhor que tivesse feito.
Perdi o dom das palavras, fiquei mudo de nascença naquele exato instante, em que a chuva recomeçava, impiedosa.
Então, era isso, pensei eu. O dia, o mundo, o parque, o banco, todos pareciam tristes e quietos em demasia, apagados de qualquer brilho de alegria ou esperança, sem dúvida nenhuma contagiados por aquele ser ao meu lado, que irradiava uma aura meio nublada, meio cinza, fazendo com que cada árvore rumoreja-se um “sinto muito”, “as coisas vão melhorar”, “não fique triste”. Devia ser angustiante estar trancafiada pela pena, mesmo fora de casa, longe de grades, sem o poder duplicador de uma janela. Tudo chorava, tudo lembrava tristeza, porque uma garota ao meu lado estava triste. Deus, ela é especial, pensei de novo.
Minha voz voltou, mas a dela chegou antes.
- E você? Não tem frio? - a pergunta era meio estupida, mas nada poderia ser mais estupido do que a morte, então respeite o momento.
- Tenho. Calor humano é o melhor sabia? - não sei bem porque disse isso, porque raios disse isso, no entanto parecia que ela estava esperando algo assim. Pulou com o bumbum três vezes e encostou o corpo no meu. Deixou a cabeça cair carinhosamente sobre o meu ombro, as pernas colarem ensopadas nas minhas. Pareciamos um casal antigo, amigo, sincero. Eis que o romantismo deixou a pneumonia longe, bem longe.
Meu braço propositalmente fez o conhecido gesto de “espreguiça-abraça”, curto porém certeiro. Enlaçei aquela garota chamada Livia ao meu corpo, talvez querendo que ela alcançasse alguma porta de meu coração, há tanto tempo desabitado. Ficamos assim, os dois, colados pela água e por um sentimento esquisito de conforto, conforto debaixo de chuva e no frio. Seu cheiro finalmente chegou em mim. Lembrava algo antigo, como as Damas da Noite que povoavam a chácara de minha avó, que eu frequentava quando era muito menor. Dava uma sensação boa, de recordações e presente ao mesmo tempo.
O mundo devagava, é claro. Não sei o que aconteceu. Tudo apontava para um momento especial. A chuva caindo leve, em cada folha e pedra daquele parque, o vento que quase esmorecia, as nuvens que pareciam perfilar, o barulho da cidade longe, muito longe, nossas respirações um pouco afoitas, nossos corpos que buscavam aquecer-se um no outro. Podiamos escutar uma televisão perto dali, quase como um som intruso. Parecia uma partida de futebol, e eu não ligava. Um cachorro passou correndo perto de nós, e eu não ligava. Eu nem sabia onde estava, não dava a minima. Mesmo assim, apesar de todo esse ritmo, compasso, notas, algo de perfeito no obscuro da vida, a música parecia desafinada, sem harmonia, sem seguimento.
Essas tardes de maio são realmente engraçadas, não hilárias, por favor, apenas engraçadas. A chuva aos poucos foi parando, diminuindo, devagar, sem pressa. Tão logo, o sol apareceu naquele parque sem nome, saído de trás de um par de nuvens e árvores acima de nós. Iluminou nossos cabelos, chegou em nossos corpos, salvou nossos queridos pés de um gelo intenso. Aquecendo e reinando claro sobre nós. Não saberia dizer quanto tempo tinha passado quando escutei a voz da garota de novo:
- Tá, eu tava brincando. Ninguém morreu… Vai ficar bravo comigo? - ela colocou um afeto doce nas últimas palavras, como se falasse com o irmão mais novo.
- Muito. - sorri.
- Que pena, assim eu não te conto por que estou aqui…
- Se tiver alguma coisa haver com esse anel prateado apertado em sua mão, eu nem estou curioso. - ela saiu do meu abraço e fez careta.
- Quando você…
- Sei lá quando… - interrompi antes que terminasse.
Em certa parte daquele momento todo, eu vi de relance o anel prateado, brilhante pela água do mundo. Para nossa pouca idade, só podia ser uma coisa: namoro. Pelo fato de não estar no dedo dela, e sim na palma da mão, não foi difícil presumir que ela estivesse magoada com o fim de um relacionamento. Por favor, eu lia Conan Doyle, “Sherlock Holmes” e etc. Esse enigma foi fichinha.
- Mas e ae, quem terminou? Você? Ele? - soltei descompromissado.
- Não quero falar sobre isso. - percebi que tinha feito a pergunta errada, a pior das perguntas talvez. Já estava preferindo o enterro. Ela levantou com brusquidão.
Não era muito mais baixa que eu, talvez dois palmos. Devo acrescentar nesse relato, como é óbvio, que notei suas caracteristicas fisicas. E que caracteristicas… Seu corpo era bem delineado, meio atletico. Era bem servida de coxas, deveria correr de bicicleta, fazer uns exercicios de rotina, talvez fizesse axé, balé, tango, tava tão na moda começar uma dança de salão… Enfim, ela era gostosa. Pronto, disse. Mesmo com a cara de brava, ela era do tipo que me encantava só de passar ao meu lado na praia.
- Eu já vou. Valeu pela companhia. - simplesmente virou e partiu, sem a menor consideração por esse vagante vadio.
- Vamos nos ver de novo! - gritei, enquando ela já estava cruzando as imediações do parque.
- Eu sei! - ela gritou em resposta. Alguma coisa de feliz saia de suas vocais, atravessava aquela distancia entre nos e chegava dentro de meu coração.
Ainda sentado, embriagado por uma mulher, respirei por alguns minutos e levantei.
Como uma maldição, o sol sumiu, o céu escureceu, a chuva voltou.
Ah! Essas tardes de maio. Hilárias.