Archive for January, 2006

Despedida

Thursday, January 12th, 2006

Era dia. Entrei no aeroporto, andando com a confiança de um habitante antigo do lugar, apesar de não saber exatamente para onde ia. Acabei perto de um porta de embarque, sentando nessas cadeiras azuis e confortáveis, assistindo um canal francês ou espanhol, quem sabe a diferença?

Conversei com um sábio mendigo um vez, ele me disse que era a pessoa mais solitária do mundo, mesmo no meio de uma multidão, mesmo no centro de São Paulo, umbigo urbano do Brasil. Assim eu me sentia naquele lugar de despedidas, encontros, desencontros. Os olhares não me focavam, a vida não parecia dizer-me respeito. Talvez pelado ainda não causasse furdúncio suficiente para vencer a apatia com o próximo, que infectava e impregnava todos no lugar. Não que eu estivesse preocupado. Chegará ali exatamente com essa intenção, isolamento sumário do mundo.

Pousei meu olhar descompromissado em cada detalhe, pessoa, objeto do lugar. Vi cigarros até o final de seu fogo, olhares sedutores, pensamentos perdidos. Presencie a graça e inocência de uma criança dormindo, de um velho dormindo, do sono em geral. A monotonia de uma fila. Vi malas de diferentes tamanhos, pessoas de diferentes lugares, todas irritantemente acreditando em sua individualidade, enquanto eu as olhava, seguro da repetição da vida e seus males, e suas felicidades, sei lá, quem sabe não tão seguro assim. Não tinha nada à pensar, gastava o tempo dessa forma, analisando, sem coerência. Em certo momento fiquei perdido em outro lugar, outro tempo, longe da realidade, perto dos meus sonhos. O som dos aviões já não incomodava, nada era muito novo, pensei em ir embora. Até que observei entrar no recinto um casal, desses, metade adolescentes, metade adultos.

O garoto vinha na frente, rosto sério, carregando uma mala rosa choque. A menina, linda, não posso deixar de citar, andava logo atrás, olhos no chão. Escutei de fundo a iminência de um vôo, e senti falta da trilha sonora do casal. “The Blower’s Daughter” seria uma ótima, tamanha era a tristeza daquela mala, daquelas roupas, daqueles olhos, minha tristeza, enfim, contagiado pela sutileza do amor.

Ficaram um na frente do outro. As palavras faltaram-me. Eu queria lhe dizer milhões de coisas, todas elas, quaisquer, que pudessem manté-la perto de mim, antecipassem a partida, interrompessem o fluxo do tempo, mas nada me ocorria. Nada parecia certo, errado, o sentido de tudo falhará. Uma lágrima escorreu do meu rosto, quando reparei que continuava sentado na cadeira. Inconscientemente roubará o lugar do rapaz. Resignado, voltei a observar.

As mãos encontraram-se num turbilhão de silêncio. Os olhos também. Meu Deus, eu daria tudo para que o Céu se abrisse e salva-se aquele casal da distância, do medo, da insegurança. Mas nada poderia fazer, apenas sofrer com eles, rezar, ter fé, apelar para última instancia, a loucura do amor. Um arroubo de coragem, que os fizesse largar as responsabilidades, morar no meio do mato, viver a paixão até o último fiapo de existência, para então retornar para a dureza do mundo, para o cinzento do mundo.

Beijaram-se, e nada que já tinha presenciado na vida pareceu tão eterno e fugaz, tão bonito e cruel, tão puro e forçado. Passaram-se horas, quando finalmente além das caixas de som, recém adquiridas pelo aeroporto, a aeromoça também insistia para que todos se apressassem. Pensei, pessoas em horário de trabalho não sentem o amor? Não. Ela queria que o avião partisse, dessa forma logo estaria com seus filhos e sua felicidade. O mundo, infelizmente, não tinha parado para aqueles dois.

A garota, olhos vermelhos, tomou coragem e seguiu seu caminho, por uma entrada meio arredondada, meio palaciana. Ficamos, eu e o garoto, olhando para aquele buraco na parede envidraçada, esperando ela retornar, chorando e dizendo que nada queria além de seu namorado. Ainda aguardávamos, quando um homem, bem vestido e sem escrúpulos, fechou a porta. O rapaz pareceu desabar. Até derrubou no chão a mala rosa choque.

Era noite quando levantei de minha cadeira e resolvi ir para casa. No mesmo lugar, o garoto recolhia as coisas de mulher, deixadas para trás como seu coração. Ainda coloquei firme uma mão em seu ombro, olhei em seus olhos e nada disse. Parecia não me ver. Pensei como o amor pode ser tão solitário. Fui para casa.

Redação de 30 linhas sobre minha vida

Tuesday, January 3rd, 2006

Fogos de artificio estouram em três pontos diferentes da praia de Peruibe, anunciando o ano de 2006. Pessoas se abraçam, choram, bebem, pulam as sete ondas. Prometem o diabo, embriagam-se de esperança. Eu simplesmente olho pro céu, levemente entediado.

Os dias passam e eu entro na faculdade de jornalismo. Conheço gente nova. Gente boa e ruim, pura e sacana, bonita e feia, inteligente e burra. Aprendo coisas novas, desaprendo outras tantas, vivo em extase por vislumbrar perfeitamente um futuro, até que acordo um dia cansado. Cansei dos prédios, dos telefonemas, da família, dos amigos, do cachorro, da poluição, dos parques, de tudo. Tranco a faculdade no quarto ano. Pego minha mala assinada por meia dúzia de conhecidos, enfio o que consigo e dou um beijo na testa de minha mãe.

Fecho a porta de casa e parto com destino incerto. Pego um ônibus para fora do país. Durmo mal, como mal, mal tomo banho. No entanto, aprendo sobre o valor indivizível de se vencer a fome, de uma cama macia, de um banho quente, e de tantas outras coisas com as quais nos acostumamos desde crianças, e nem imaginamos que um dia possam ser tiradas de nós. Vejo o mais belo entardecer, a mais solitária das noites, o mais desesperado dos abismos e entendo que nada disso tem muita graça quando não se pode compartilhar com alguém. Sinto saudades do meu cachorro, sigo o caminho inverso.

Volto renovado e termino a faculdade. Na viagem conheci pessoas, boas e más, blá blá blá, enfim, por todo lado os homens são todos iguais, as mulheres sempre um mistério, nenhuma viagem pode mudar o destino imenso da humanidade. Revejo a família, os amigos, os conhecidos, os professores, os inimigos, e todos estão mudados. Alguém me diz, Quem mudou foi você, eu respondo, Como pode, se o cachorro é o mesmo?

Consigo trabalho numa redação. Escrevo textos legais, mas um cara feio e de óculos as vezes me reviza. Me sinto nu quando ele faz isso. Tira meus adjetivos, rompe com meus erros gramaticais, me torna outra vez um jornalista como todos os outros, imparcial e parcial, chato e muito chato, sem qualquer mudança sobre o mundo.

Sou demitido. Não gosto de falar sobre isso.

Viajo novamente. Dessa vez vou de carona com um carro de contrabando. Fico meio marginal e descubro o valor da vida, depois de um tiroteio, da corrupção, do medo de uma arma, da fuga não se sabe do que nem até quando. Passo mais fome, durmo pior do que nunca, me drogo e quase enlouqueço, pra ser então salvo por uma nativa (não lembro de que terra), de olhos negros como o fundo do mar, mas ainda mais misteriosos, ainda mais silenciosos. Toco cada parte do seu corpo, faço sexo até que a eternidade se rompa no calor de sua pele, e os gemidos, sinto que minha vida vai acabar naquele vórtice e abismo de mulher. Ela morre numa manhã serena, bala perdida. Choro por mil dias e sinto falta do meu cachorro.

Volto e descobro que o pobre cão morreu. Novamente tudo mudou, mas agora sem minha âncora com o passado me perco e descubro que afinal quem mudou foi eu. Minha barba, meus olhos claros, minhas cicatrizes e meu diário confessam finalmente a mudança. Me entrego então a causas sociais e saio na rua pregando.

Luto pelo direito dos outros. Faço discursos, enfrento a polícia pela cidade, viro em pouco tempo líder de um grupo de pessoas também afins de mudança. Até que a casa cai, os ventos mudam, e tudo que nós acreditavamos vai para o esgoto. Nossa fé vai para o esgoto. Nossos sonhos vão para o esgoto. E só não busco a morte naquele momento porque encontro a mulher da minha vida.

Nosso amor, apesar de rebelde, apesar de selvagem, me torna manso. Prende correias em mim e faz com que eu sonhe baixo, pois nada parece melhor do que aquele rosto, todas as manhãs, e as tardes, e as noites, ao meu lado, olhando, não com aquele preto profundo, mas com um verde elétrico e incansável.

Sonho em montar um exército de jornalistas, lecionando numa faculdade decente. Dou aulas com fervor nacionalista, contagio os alunos, recebo aplausos. Ligam-me pedindo palestras, livros, histórias, e eu cedo. Me entrego. Vou deixando em cada canto que passo um pouco da minha sede de justiça, de vingança, de dor, tentando recuperar um país perdido. Mas a velhice me diminui, pareço fraco, e a sensação piorá todos os dias. Sinto saudades do cachorro e da pele da nativa.

Sou respeitado e admitido na melhor universidade do país. Já não tenho aquele amor, paixão, já não consigo cativar uma sala de 20 alunos ricos que só querem o diploma para esfregar na cara de seus pais e procurarem um emprego cômodo por aí. As coisas parecem perder o sentido, a não ser o amor que sinto por minha querida.

Me aposento, compro uma casa perto do mar. Todas as manhãs acordo com o som das ondas batendo nas pedras, as aves cantando, o sol passando pelas frestas da minha humilde e última residencia nessa terra. Sinto a morte vindo não se de onde, mas não ligo, não.

Morro dia 26 de maio de um ano que não sei qual é, num final de tarde como todos os outros. Deixo a mulher que amo, uma casa e um bocado de lembranças na mente de amigos, conhecidos, inimigos e familiares. Pois, quando o último destes morrer, acabou-se minha passagem por esse mundo. Simples, assim.