Era dia. Entrei no aeroporto, andando com a confiança de um habitante antigo do lugar, apesar de não saber exatamente para onde ia. Acabei perto de um porta de embarque, sentando nessas cadeiras azuis e confortáveis, assistindo um canal francês ou espanhol, quem sabe a diferença?
Conversei com um sábio mendigo um vez, ele me disse que era a pessoa mais solitária do mundo, mesmo no meio de uma multidão, mesmo no centro de São Paulo, umbigo urbano do Brasil. Assim eu me sentia naquele lugar de despedidas, encontros, desencontros. Os olhares não me focavam, a vida não parecia dizer-me respeito. Talvez pelado ainda não causasse furdúncio suficiente para vencer a apatia com o próximo, que infectava e impregnava todos no lugar. Não que eu estivesse preocupado. Chegará ali exatamente com essa intenção, isolamento sumário do mundo.
Pousei meu olhar descompromissado em cada detalhe, pessoa, objeto do lugar. Vi cigarros até o final de seu fogo, olhares sedutores, pensamentos perdidos. Presencie a graça e inocência de uma criança dormindo, de um velho dormindo, do sono em geral. A monotonia de uma fila. Vi malas de diferentes tamanhos, pessoas de diferentes lugares, todas irritantemente acreditando em sua individualidade, enquanto eu as olhava, seguro da repetição da vida e seus males, e suas felicidades, sei lá, quem sabe não tão seguro assim. Não tinha nada à pensar, gastava o tempo dessa forma, analisando, sem coerência. Em certo momento fiquei perdido em outro lugar, outro tempo, longe da realidade, perto dos meus sonhos. O som dos aviões já não incomodava, nada era muito novo, pensei em ir embora. Até que observei entrar no recinto um casal, desses, metade adolescentes, metade adultos.
O garoto vinha na frente, rosto sério, carregando uma mala rosa choque. A menina, linda, não posso deixar de citar, andava logo atrás, olhos no chão. Escutei de fundo a iminência de um vôo, e senti falta da trilha sonora do casal. “The Blower’s Daughter” seria uma ótima, tamanha era a tristeza daquela mala, daquelas roupas, daqueles olhos, minha tristeza, enfim, contagiado pela sutileza do amor.
Ficaram um na frente do outro. As palavras faltaram-me. Eu queria lhe dizer milhões de coisas, todas elas, quaisquer, que pudessem manté-la perto de mim, antecipassem a partida, interrompessem o fluxo do tempo, mas nada me ocorria. Nada parecia certo, errado, o sentido de tudo falhará. Uma lágrima escorreu do meu rosto, quando reparei que continuava sentado na cadeira. Inconscientemente roubará o lugar do rapaz. Resignado, voltei a observar.
As mãos encontraram-se num turbilhão de silêncio. Os olhos também. Meu Deus, eu daria tudo para que o Céu se abrisse e salva-se aquele casal da distância, do medo, da insegurança. Mas nada poderia fazer, apenas sofrer com eles, rezar, ter fé, apelar para última instancia, a loucura do amor. Um arroubo de coragem, que os fizesse largar as responsabilidades, morar no meio do mato, viver a paixão até o último fiapo de existência, para então retornar para a dureza do mundo, para o cinzento do mundo.
Beijaram-se, e nada que já tinha presenciado na vida pareceu tão eterno e fugaz, tão bonito e cruel, tão puro e forçado. Passaram-se horas, quando finalmente além das caixas de som, recém adquiridas pelo aeroporto, a aeromoça também insistia para que todos se apressassem. Pensei, pessoas em horário de trabalho não sentem o amor? Não. Ela queria que o avião partisse, dessa forma logo estaria com seus filhos e sua felicidade. O mundo, infelizmente, não tinha parado para aqueles dois.
A garota, olhos vermelhos, tomou coragem e seguiu seu caminho, por uma entrada meio arredondada, meio palaciana. Ficamos, eu e o garoto, olhando para aquele buraco na parede envidraçada, esperando ela retornar, chorando e dizendo que nada queria além de seu namorado. Ainda aguardávamos, quando um homem, bem vestido e sem escrúpulos, fechou a porta. O rapaz pareceu desabar. Até derrubou no chão a mala rosa choque.
Era noite quando levantei de minha cadeira e resolvi ir para casa. No mesmo lugar, o garoto recolhia as coisas de mulher, deixadas para trás como seu coração. Ainda coloquei firme uma mão em seu ombro, olhei em seus olhos e nada disse. Parecia não me ver. Pensei como o amor pode ser tão solitário. Fui para casa.