Archive for February, 2006

E agora o que rapá?

Friday, February 24th, 2006

Faz algum tempo que deletei meu Orkut, quase como um ancião negando a existência da Internet. Confesso, é um retrocesso. Os sites de relacionamento são a mais nova moda de todas as faixas etárias, classes sociais e tribos urbanas. Rico, pobre, parente, inimigos, estão lá, cheios de chances. Todos querem ser populares.

Minha mãe foi o primeiro contato. Ela comentou por cima, falou sobre um site muito bom, onde as pessoas poderiam se reencontrar, fazes novos amigos, trocar idéias sobre os mais variados assuntos, tudo muito rápido, eficiente e blábláblá. Quase achei que ela fosse contratada dos caras do Google. Tanto que eu adquiri o kit. Ela fez aquele lance do convite e tudo mais, logo eu estava preenchendo meu perfil, adicionando alguns amigos, me divertindo muito.

A lista de “Friends” foi aumentando. Os fãs, os testemunhais, os scraps… Vocês sabem do que estou falando, não se façam de sonsos. Não finjam que ficaram tristes ao conhecerem o gosto da popularidade, o prazer de ser requisitado, a graça indivisível de bisbilhotar a vida dos outros, conhecer detalhes. Onde trabalha, com quem namora, sorvete predileto, se bebe, se fuma, qual posição sexual de preferência e assim vamos, clicando em comunidades, conferindo post’s, abrindo o diário de cada um e folheando as páginas. Indo e voltando na história, no presente e no futuro de cada um de nós. Eu fiz isso. Alguns de vocês também fazem. Sinceramente, quase todo mundo.

Mas, quem esperaria menos? Quer dizer, eu chego em casa, jogo minha mochila no sofá, olho pra minha mesa e vejo nada menos que 389 diários. E não são quaisquer diários. Tem do meu pai, da minha irmã, dos meus amigos, daquela garota gostosa, que na realidade eu nunca conversei, mas fiz questão de adicionar e puxar um papo, da minha ex, da turma do primário, segundo grau, cursinho… O pessoal da balada, da academia… Porra, quem vai me parar? Mesmo que eu não veja todos, poxa, uma conferida naquele rosa choque, com os segredos e confissões mais quentes da “cavala” (que me perdoem a expressão, mas de fato ela é uma grande mulher com tudo em cima, alias, a definição exata de “cavala”) do meu bairro… Eu morro de amores por ela… É só uma olhadinha.

Não via a hora em que o relógio badala-se meia noite e um, do dia 24 de janeiro, fatídica data de meu nascimento. Na ocasião, como esperado, meus scraps pularam de 700 pra 1000. Fiquei feliz? Não.Centenas de recados, não de pessoas, e sim de rostos e nomes, coraçõezinhos e carinhas, parabénizando-me pelo que? Mal me conhecem, não sabem nada sobre mim. Opa… Sabem sim. Viram minhas comunidades, leram meus scraps, conferiram meus testemunhais. Acreditem, as pessoas não são esse poço de mistério que andam dizendo por aí. Somos imprevisíveis sim, mas nos repetimos infinitamente.

Tão imprevisível sou, que deletei meu Orkut. “Meu DEUS, deletou? E agora?”. E agora o que rapá? Não reencontrei, conheci ou troquei idéias fundamentais com ninguém. Minha vida hoje é a mesma, só não perco mais tempo fuçando no chiqueiro alheio, que não me diz respeito até que me convidem à entrar. E eu quero entrar, mas pessoalmente, por telefone, num barzinho, tantufaz. O que eu não conseguia mais suportar era essa distância virtual… Tão perto, mas tão longe. Tão intimima, mas tão distante. Tão fácil e ao mesmo tempo tão complicada.

Talvez eu ainda seja um velho ancião, apreciador de belas histórias, contadas por bons amigos, aconchegados em minha casa. Ainda sim, não penalizo ninguém por apreciar essa rede de contatos, mesmo porque acredito que um dia deva novamente ceder a ela. Mas não como antes. Aquilo deve ser mais como um mural de recados, lembranças. Não podemos acreditar que ele seja mais autêntico que um abraço, um beijo, um contato, que a cara de bobo do seu melhor amigo. Se assim for, concordo com os pessimistas: a humanidade não tem futuro…

*Críticas e comentários são mais do que bem-vindos. São necessários.

Mudança…

Tuesday, February 21st, 2006

Eu vejo as evidências. O lixo jogado no chão, as crianças pedindo por comida, os carros atravessando o farol vermelho e atropelando os passantes. Eu escuto sons vindos do buero. Lamentos, ameaças, maldições, despejados por pessoas como eu, como você, clamando pela desgraça alheia. Eu sinto cheiro do medo. O vento que trás. Medo do futuro, do passado, e incrívelmente do presente, como se devessemos temer à vida, quando mal deveríamos temer a morte, tão natural quanto os sorrisos, e as lembranças, e o chocolate.

Quando foi que desistimos de sermos melhores? Quando estregamos as armas, baixamos a cabeça, afinamos o som de nossas voz?

Foi em algum lugar entre a incerteza e a desesperança. Na dificuldade financeira, num familiar perdido, num amor partido. E logo que se instalou essa desvontade de viver a vida, essa desventura de arriscar os sonhos, todos perceberam: como é muito mais fácil ser triste do que alegre, ser rancoroso do que amável, ser fechado do que sorridente. Como nossos sonhos são facilmente passáveis, nossos amigos passageiros passantes, nossa vida uma breve passagem. Como nosso sofá é muito, mas muito mesmo, mais comodo do que o lado de fora de nosso lar. Vamos viver essa coisa simples que é a infelicidade.

Quando foi? Que desistimos de sermos melhores, que estragamos nossos sonhos com dinheiro, que aceitamos a lerdeza e morosidade? Não faz muito tempo, foi agora pouco.

Mas eu ainda rezo. Peço, humildemente, sem querer quase, pela mudança, pelo perigo, pelo amor. Que as pessoas acordem, vejam seu duplo no espelho e digam, com coragem, com vontade: eu posso mudar. Hoje é um novo dia, e eu posso mudar. Se eu não mudar hoje, amanhã eu posso mudar. Todos os dias, todas as manhãs, eu tenho uma nova chance, de tentar tudo de novo, de ser quem eu quiser, de fazer tudo mudar. Que a desesperança não me afogue, nem a esperança me sufoque. Que eu viva essa coisa louca chamada realidade, não só a minha, mas a nossa.

Quando foi que aprendemos a mudar? Agora, talvez…