Archive for March, 2006

Dona Cotinha!

Monday, March 20th, 2006

 

Até o Zé, o porteiro, já sabe: este ano passa voando. Entre uma série de razões, aquela que produz mais enjôo é sem dúvida a eleição para presidente, governador e senador. Falando em política, você quase fecha essa página e vai embora. Peço que fique. Não tenho qualquer pretensão de convencer alguém sobre aquele candidato ou o outro. Por enquanto, vou fazer algo que odeio: ser imparcial. Tomar posição, sair de cima do muro, levantar a voz para defender algo são coisas que admiro nas pessoas, mas hoje vou aquietar minha vontade de berrar “Político X, vai-te a merda” e simplesmente expor minha decepção.


“Todos eles não prestam. Patifes! Sem vergonhas! Desgraçados!…” Posso ficar aqui enumerando qualidades que todos nós damos a estes homens altíssimos, mas seria perda de tempo enriquecer vosso vocabulário com palavras tão terríveis. Pois sim, elas vão piorando. Ficam cada vez mais sujas, dependendo do nosso nível de raiva que, dados os mensalões, Paloccis e etc. está elevado. Adoramos falar mal deles e não tiro o dever de ninguém. Acordar e mandar o presidente a merda é comprovadamente uma boa dica de como começar o dia. Mas não basta. 

Vamos considerar a existência hipotética de Dona Cotinha. Dona Cotinha levanta certo dia e, como tem preguiça de aprender Yoga, fala mal do presidente. Renovada, sai da cama correndo, cutuca seus bacurizinhos, dizendo “bora bora, bora pa’s Casa Bahia”. Feliz, feliz, contente, contente, usa o décimo terceiro para comprar um luxuoso microondas, ar condicionado. Eliminando os detalhes menos importantes, quando ela liga o troço em sua casa, puft!, não funciona. Pior, capuft!, mata um dos seus filhos. E vai além: escatutuft!, detona com o almoço. Indignada, morta de raiva, com o sangue nos olhos, Dona Cotinha  vai até a loja e faz um barraco. Afinal, é seu direito. Comprou, levou e não funcionou, ela quer outro.

Dona Cotinha soube exatamente o que fazer quando seu microondas deu pau. Mas, quando o presidente em quem ela votou, confiou e botou sua fé mostrou-se totalmente desqualificado e, pior, mentiu descaradamente, Dona Cotinha nada fez. Reclamou um pouco, xingou um monte, mas seguiu com sua pobre vida, repetindo e repetindo o que eu já estou cansado de escutar: “Não adianta nada memo! São tudo igual esses homi!”.  

Como essa realidade é distante da nossa! Como somos participativos, empenhados! Dá orgulho de ver o respeito que temos para com o nosso futuro. Sempre votamos com consciência e, quando frustram nossas expectativas, não perdemos tempo em cobrar aquilo que queríamos. Não é verdade?


Não. Minha irônica pretende atingir seu esôfago, caro amigo. Reclamar é muito fácil, xingar logo de manhã é perfeitamente saudável. Mas o que fazemos ao omitir nossa cobrança é ajudar um sistema porco e falido, que parece sempre mais preocupado com seus salários e benefícios do que com o bem público. Sei que talvez você só tenha vinte e poucos anos, não quer saber de mim nem de ninguém, não vai se desfazer dos seus planos. Mesmo assim, um pouco menos de indiferença talvez traga algo de bom. 

Acompanhe os jornais, revistas, comentários na padaria de manhã. Saiba o que está acontecendo no mundo da política porque, mesmo que você não queira acreditar, também é o seu mundo. O que você tem feito com ele? Nós? Abra os olhos e não os feche tão depressa; é assustador, mas remediável.

PS: Comentários, pela graça do bom Bacco, Deus do Vinho, ou seja lá qual Deus preferir. 

Nossos ideais e ovos podres

Wednesday, March 8th, 2006

 

 

Era uma hora da tarde, eu estava voltando do cursinho. Pensava na copa do mundo, na loira a minha esquerda na sala, nas lições de vida dadas por alguns professores, quando observei meu ponto cada vez mais próximo. Apertei aquele invenção maravilhosa chamada botão (nunca tive problemas com a cordinha, vá lá) e desci ou fui arremessado, como preferir, para um verdadeiro pandemônio. Obras na avenida enfrente ao meu bairro.

Depois de umas cinco tentativas, finalmente consegui atravessar a rua. Quase morri atropelado, mas quem liga? Parece que estão abrindo e represando o Rio Nilo debaixo do asfalto, e ninguém lembra de pintar uma droga de faixa de pedestres. Paciência. Nem vou comentar que agora eu tenho que pegar meu ônibus quase do outro lado do planeta. Ahh, eu exagero, deixem-me em paz.

Mas tudo isso foi comentado como cenário. O ponto fundamental dessa crônica, sinto informar, são os encontros.

Esse meu bairro é quase uma cidade interiorana. Todos se conhecem. Se não são amigos, colegas. Se não são colegas, definitivamente essas duas pessoas em questão já ouviram falar uma da outra. Na pior das hipóteses, são desafetos. Odeiam-se como Caim à Abel, Capuletos e Montescos, americanos e regimes (contra a gorda ou a democracia). São opostos e um dia quebrarão o pau. E com certeza, mesmo que você se esforçe muito para manter-se longe das fofocas, vai ficar sabendo que fulano e ciclano lutaram até a morte. Sabe aquele passarinho azul? Mora por aqui, eu juro. Vi ele contando várias histórias pra uma galera ali no cabelereiro.

Conforme eu vou caminhando, atravessando e subindo meu bairro, nada mais que uns 200 metros, vou encontrando pessoas. Hoje foram seis, andando na rua, paradas na padaria, correndo para casa a tempo de pegar o almoço quente. Nem vou comentar a quantidade de conhecidos, ou arquinimigos. É absurda. Antigamente eu comprimentava todos. Como um bom político, conversava sobre novidades e etc. Hoje mando apenas um aceno com a mão, quando não as vezes atravesso e fico na outra calçada, pra evitar qualquer carente desgraçado. Mesmo assim, confesso que adoro olhar aqueles rostos envelhecidos (pouco, é certo), aqueles sorrisos extraviados, aqueles jovens quase virando homens e mulheres. Roubo um pouco de suas vidas, imagino o que andam fazendo quando não estamos mais vendo.

Imagino que estejam na faculdade, trabalhando, namorando. Levando suas vidas para um futuro rentável, criando suas raízes e pensando numa boa morte certo dia. Estão errados? Não, claro que não. Todos querem ter estabilidade, equilibrio, mesmo sendo a felicidade a loucura mais louca inventada um dia por um maluco velho do mar. Eu acho mesmo que nasci na época errada.


Aqueles dois do quarto parágrafo encontram-se na Praia do Castelo:
- Fala querido! Tranquilo? – longo abraço entre amigos de infância.
- Tudo certo, e com você? – a conversa se desenvolve até que chega no parte interessante.
- Ficou sabendo do Lucas?
- Qual Lucas?
- Lucas Maio! O cabeludo! – maldita referência, mas tudo bem.
- Lógico… Mas faz tempo que não escuto falar dele!
- Se não sabe! Vendeu a mãe e a irmã, juntou a grana e foi salvar pôneis na Guatemala!!!

Porque eu não escuto mais falar de sonhos malucos? De pessoas arriscando tudo que tem por um ideal? No que essa juventude de hoje, esses garotos do meu bairro, esses rostos com um sorriso extraviado, acreditam? Em malhar, ter corpos belos? Em beijar, e curtir, e beber até a incosciência? Em enlouquecer em uma trip muito irada? Sim, sim para todas as anteriores. Qual é o problema? Nenhum, só eu que nasci na época errada. Queria todos lutando por uma país melhor, por justiça, igualdade, dando o sangue para que nossos netos vivam num mundo melhor, não só num mundo mais rico e confortável. “Na moral né Lucas”. É.

Na pior das hipóteses, queria ter nascido numa era em que meus amigos compram muitos  ovos podres e me ligam aqui para barbarizar com as obras na minha avenida. Tomam atitudes. São engajados, não imparciais. Seria muito divertido. Mas, enquanto não acho algo em que possa acreditar piamente, continuo beijando, curtindo e bebendo, porque sou jovem e por isso não preciso me explicar sobre coisa alguma, culpo os hormônios e tá feito.

ps: Comentários não são permitidos. São necessários.