Até o Zé, o porteiro, já sabe: este ano passa voando. Entre uma série de razões, aquela que produz mais enjôo é sem dúvida a eleição para presidente, governador e senador. Falando em política, você quase fecha essa página e vai embora. Peço que fique. Não tenho qualquer pretensão de convencer alguém sobre aquele candidato ou o outro. Por enquanto, vou fazer algo que odeio: ser imparcial. Tomar posição, sair de cima do muro, levantar a voz para defender algo são coisas que admiro nas pessoas, mas hoje vou aquietar minha vontade de berrar “Político X, vai-te a merda” e simplesmente expor minha decepção.
“Todos eles não prestam. Patifes! Sem vergonhas! Desgraçados!…” Posso ficar aqui enumerando qualidades que todos nós damos a estes homens altíssimos, mas seria perda de tempo enriquecer vosso vocabulário com palavras tão terríveis. Pois sim, elas vão piorando. Ficam cada vez mais sujas, dependendo do nosso nível de raiva que, dados os mensalões, Paloccis e etc. está elevado. Adoramos falar mal deles e não tiro o dever de ninguém. Acordar e mandar o presidente a merda é comprovadamente uma boa dica de como começar o dia. Mas não basta.
Vamos considerar a existência hipotética de Dona Cotinha. Dona Cotinha levanta certo dia e, como tem preguiça de aprender Yoga, fala mal do presidente. Renovada, sai da cama correndo, cutuca seus bacurizinhos, dizendo “bora bora, bora pa’s Casa Bahia”. Feliz, feliz, contente, contente, usa o décimo terceiro para comprar um luxuoso microondas, ar condicionado. Eliminando os detalhes menos importantes, quando ela liga o troço em sua casa, puft!, não funciona. Pior, capuft!, mata um dos seus filhos. E vai além: escatutuft!, detona com o almoço. Indignada, morta de raiva, com o sangue nos olhos, Dona Cotinha vai até a loja e faz um barraco. Afinal, é seu direito. Comprou, levou e não funcionou, ela quer outro.
Dona Cotinha soube exatamente o que fazer quando seu microondas deu pau. Mas, quando o presidente em quem ela votou, confiou e botou sua fé mostrou-se totalmente desqualificado e, pior, mentiu descaradamente, Dona Cotinha nada fez. Reclamou um pouco, xingou um monte, mas seguiu com sua pobre vida, repetindo e repetindo o que eu já estou cansado de escutar: “Não adianta nada memo! São tudo igual esses homi!”.
Como essa realidade é distante da nossa! Como somos participativos, empenhados! Dá orgulho de ver o respeito que temos para com o nosso futuro. Sempre votamos com consciência e, quando frustram nossas expectativas, não perdemos tempo em cobrar aquilo que queríamos. Não é verdade?
Não. Minha irônica pretende atingir seu esôfago, caro amigo. Reclamar é muito fácil, xingar logo de manhã é perfeitamente saudável. Mas o que fazemos ao omitir nossa cobrança é ajudar um sistema porco e falido, que parece sempre mais preocupado com seus salários e benefícios do que com o bem público. Sei que talvez você só tenha vinte e poucos anos, não quer saber de mim nem de ninguém, não vai se desfazer dos seus planos. Mesmo assim, um pouco menos de indiferença talvez traga algo de bom.
Acompanhe os jornais, revistas, comentários na padaria de manhã. Saiba o que está acontecendo no mundo da política porque, mesmo que você não queira acreditar, também é o seu mundo. O que você tem feito com ele? Nós? Abra os olhos e não os feche tão depressa; é assustador, mas remediável.
PS: Comentários, pela graça do bom Bacco, Deus do Vinho, ou seja lá qual Deus preferir.
