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Desire (desejo)

Tuesday, April 4th, 2006
 
 

As crianças brincavam no tapete da sala. A mulher tirava a mesa do jantar. Eu, desatento, acompanhava o jornal, esparramado cândido no sofá. 
 
Era uma noite que transcorria como todas as outras. Naqueles instantes dos meus quarenta anos, sufocado por uma rotina gritante, sonhava. Eram viagens esbaldando dinheiro com mulheres loiras e suculentas, carros velozes por ruas estreitas, casinos lotados e corruptos, orgias inenarráveis, salvamentos e condecorações, eu voando, lutando, salvando o mundo, coisas assim, jovens, solteiras, desapegadas da família. 

Os quadros na parede eram só quadros. As lembranças escondidas na memória, apenas lembranças. A mobília, os brinquedos, os pagamentos, tudo simplesmente existia. Nada movimentava sentimentos em mim, nem de repúdio, ou constragimento, tão comum em meus amigos.

Eles reclamavam de tudo. Da gordura da esposa, dos filhos e de suas brincadeiras, do trânsito. Eu apenas ouvia, concordava. Invejava esse equilibrio que eles conseguiam manter, reclamando os tubos numa mesa de bar e sendo regularmente felizes em casa. Talvez eu quisesse ser muito feliz, em demasia. Vivendo numa corda bamba, eles andavam devagar, enquanto eu queria correr ou cair e, na dúvida, ficava parado. Já não suportava mais minha apatia. 

Mudei de canal esperando mudar meu passado. Ter usado camisinha, não ter casado, não comparecer no dia do exame do concurso público, não viver nas costas da porca velha do Estado. Chifrado minha mulher mais vezes, voltado depois do horário menos vezes. Queria ter sido incoerente, inconsequente. Em síntese, o oposto daquele quarentão que assistia o jornal só para passar o tempo até chegar a hora de deitar na cama e roncar como um porco.  

Fechei os olhos, não lembro porque. Perguntei-me como tinha parado naquela sala confortável, depois de ter almejado a vida com tanto ardor. Como tinha ganhado barriga, ficado careca. Tive vontade de chorar e, num átimo, breve, desejei do fundo de minha alma que tudo fosse diferente, que meus sonhos tivessem-se realizado, que eu pudesse voltar atrás em minhas escolhas. Ansiei quase não ter nascido, evitado aquele quase fim medonho.

Tão leve quanto o pensamento, um frio esquisito atingiu-me na barriga e depois nos pulmões, sufocando-me. Não era que me faltava ar; pelo contrário, ele parecia ter entrado em demasia dentro de mim, gélido, sólido, trazendo consigo um medo que eu não conhecia. Desesperado, soltei o controle e cerrei minhas mãos, ainda de olhos fechados, como se estivesse apertando os cintos de um avião em plena queda livre. Sem querer sangrei minha linga com os dentes. O mundo girou de repente e tudo silenciou.

Não escutava mais os pratos na cozinha, nem as crianças aos meus pés. Parecia ter entrado numa bolha de plástico, desprendido do mundo, isolado como uma estrela. Temendo, abri os olhos. A escuridão era a mesma daquela quando estavam fechados. Tentei novamente, mas o bréu continua me cercando.

 
Apalpei ao meu redor, senti o sofá, mas isso não me deu segurança. Não podia chamar por minha família; temia que não obtive-se resposta. O corpo começou a suar, tremer, sentir muito frio, respondendo aos estímulos de um ambiente que lembrava um caixão, daqueles de madeira, enterrados a onze palmos do chão. Talvez fossem ladrões, pensei, mas isso não explicava a quietude. Talvez fosse uma ocasional falta de energia, mas então onde estavam os gritos das crianças? Eu estava completamente perdido quando finalmente escutei algo.
 
Primeiro foram umas batidas, que eu demorei para assimilar. Três toques na porta da frente do apartamento. Lentos. Pausados. Secos. Tentavam chamar minha atenção, como se fosse possível eu me concentrar em mais alguma coisa. Não posso descrever em palavras o desespero que senti pelo silêncio que se seguiu; em verdade, mal compreendia meu medo, apenas não queria estar sozinho.E de novo, toc, toc, toc, batendo no meu caixão. Preferia morrer à viver aquela insegurança. Eu não era mais nada, era um pedaço de carne que tremia como uma gelatina e que se espatifou, em milhões de pedaços, quando escutou um murmúrio, um sussuro, um vento, quase uma brisa, gelada e rouca, dizendo:
 
 - José… Bernardo… de Oliveira 

Alguém chamava meu nome na porta da frente, mas eu não queria atender.
 

 

 

Continua…