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Eu não fecho os olhos

Monday, May 15th, 2006

Não é de hoje que as pessoas andam morrendo. Lá fora, onde o frio desnuda todos os homens e os lembra de suas limitações, tiros estão sendo disparados, balas atingem seus alvos, corpos caem com um baque surdo no chão. De repente, o tiroteiro recomeça, sem nunca encontrar um fim, pois todas essas mortes são estúpidas e só abrem caminho para outras tantas.

O primeiro comando da capital – recuso-me a escreve-lo com letras maiúsculas – orquestrou e executou um extenso plano de ataque contra as forças instituídas do Estado. Separadamente, matou policiais civis, militares, guardas municipais, agentes penitenciários, numa onda de sangue e ódio difícil de se descrever em palavras. Não conhecemos esses homens da lei, não sabemos de seus vícios e virtudes, mas devemos uma mínima reverência àqueles que perderam suas vidas em serviço à população. Rezem por suas almas, chorem por suas famílias, tanto faz. Resta-me uma tristeza no coração por essa fragilidade, essa existência delével que nos sufoca. 

É claro, sempre haverá uma voz nesses momentos que proclama: “Matem os líderes! Matem os bandidos! Temos que matar todos esses desgraçados!”. Eu disse uma? Não… São várias as vozes, sem contar as silenciosas, ressentidas, escondidas dentro de cada ser humano… A raiva, o ódio, a vocação para a destruição, está semeada no interior de cada um de nós, acredito. Lutamos contra isso contanstantemente e é nos momentos em que o “Mal” prevalece que mais facilmente nos deixamos guiar por essa chama.

Que não deve ser alimentada. Atirar a sangue frio numa pessoa, injetar em seu sangue veneno, faze-la inalar gás, são ótimas formas de se igualar ao crime, aos corruptos, aos “desgraçados”. A Lei de Talião morreu faz séculos por uma simples razão: matava inocentes. Hoje, matamos os líderes de tal facção criminosa, amanhã assassinamos todos os condenados a 50 anos de prisão e assim vamos, matando e matando, até que a justiça humana, imperfeita, sujeita a erros, vai levar a vida de uma criança inocente, de um adolescente drogado, um pai falido, que além dos próprios erros teve de lutar contra um sistema defasado, onde a educação é só um par de números e sem conteúdo real, por exemplo.   

O direito a existência é inerente e não nos cabe escolher quem vive e quem morre. Quando me dizem: “Ahh, esse garoto com porte de drogas deveria morrer mesmo!” e eu pergunto pra fulano, “E se fosse seu filho? E se fosse seu pai?”. Quando é no jardim de casa ninguém gosta… Das duas, uma: ou o recebo um silêncio constrangido, ou uma indignação hipócrita, do tipo, “Tem que morrer do mesmo jeito”. As pessoas não entendem a morte, suas consequencias, deveriam abaixar a cabeça para tal tema.

Não sei qual vai ser o desfecho dessa situação. No momento, mais de 50 pessoas morreram, a troco de que? Poder. Quem manda na cidade, é isso que está sendo decidido nos asfalto molhado de sereno. E, sem sombra de dúvidas, o Estado vai prevalecer. Alguns vão ser condenados, outros não e muitos morreram. Quantas famílias destruídas, quantas lágrimas de sal amargo? Muitas, todas. Não vou fechar meus olhos e nem deixar que a rotina afogue a lembrança dos fatos mórbidos desse final de semana, mas me recuso a descer ao nível desses homens que já não tem mais nada na vida, além da expectativa da morte em qualquer esquina, em qualquer boteco, por um bocado de reais. A desesperança é um mal infeliz de todos nós.

Imagens: http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/galeria-20060513-pcc.shtml

Informações: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/saopaulosobataque/

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