Archive for June, 2006

Visitando o lado de fora do ovo burguês

Thursday, June 29th, 2006

 

Faz pouco tempo que me ocorreu: nunca fui tocado pelo “mal”. Não falo de vilões montados em cavalos negros, me impedindo de voltar para casa. Falo dos assaltos, do ódio, da traição, da fome e etc. Em meu minúsculo cubo burguês, nunca tive qualquer encontro com essa violência e maldade que se alastram nos jornais e na televisão, matéria de tanto assunto e consideração.

Bom, eu nunca tive até agora pouco. Meu olho roxo é sinal: já estava em tempo de sentir novamente o mundo, ver quais eram os verdadeiros problemas. Mas vejam, estou começando pelo fim. Não é certo.

Voltava de uma exaustiva prova do Mackenzie, vestibular. Depois de 4 horas de prova, algumas certezas se configuram em sua mente: banho, comida, cama. Desatento, entrei no metrô, baldeação, fui parar as 18:30 no ônibus Nova Fronteira.

Encostei-me lá no fundo e fui entregue a minha imaginação. Fiquei pensando, e pensando, perdido, olhando para janela, as vezes interrompido por um ombro ou cotovelo. Mas, em determinado momento, um cara de blusão branco e bigode por fazer, parado atrás de mim, me olhou. Não digo olhou no sentido meramente espacial: ele me avaliou.

Prendi a respiração por alguns segundos e tentei esquecer daqueles olhos. Era besteira minha, preconceito pelo rosto malcriado e sem graça que mirava a todos com expectativa misteriosa.

O mistério foi solucionado por um homem grande, sentado na poltrona imediatamente na minha frente. O cara de blusão branco saiu das minhas costas rapidamente e começou a cochichar na orelha do grandão. Imaginei milhares de coisas na hora, mas quando vi o relógio passando de um pulso para o outro, só tinha uma imagem na minha mente. Era um assalto.

Minha primeira reação foi afastamento. Que roubasse as pessoas do meu lado, eu não me preocupava. Logo, reparei que não havia para onde fugir: estava num ônibus quase lotado.

Segundos depois ele já estava abordando uma senhora em pé, logo do meu lado. Reparei como minhas pernas não paravam um segundo, como meu coração ficou acelerado. Não me ocorria nada à fazer. Achei sinceramente que escaparia, que ele se contentaria com aqueles dois e que me deixaria em paz.

Ele chegou perto de mim e simplesmente me afastei de novo. Pediu meu celular, minha carteira, pediu tudo ao mesmo tempo. Eu disse que não tinha, Eu só tenho documentos cara, me deixa em paz, Tá me tirando, deixa eu ver ai, deixa eu ver ai seu otário, Eu não tenho nada cara, só documento, você já apalpou, Apalpou, tá me tirando de viado seu cusão. Ele me deu um soco na barriga e, como não tive reação, levei um no olho esquerdo.

Foi um golpe forte. Minha cabeça foi um pouco para trás, mas eu me mantive em pé e impassivo. Tinha terror nos olhos, tremor nas pernas, no entanto não entreguei nada. Porque? Não sei.

Ele desceu do ônibus e, de repente, as pessoas pareceram acordar de um sonho. O que aconteceu, Ele te roubou, Se fosse eu tinha arrebentado o cara, Vamo descer e quebrar ele, Para o ônibus ai motorista. Assim, num estalar de dedos, todos tinham ficado corajosos. Que beleza.

Só não falavam três pessoas: o grandão, a senhora e eu. Nos três ficamos calados, estáticos, perante ao acontecido, perante a facilidade com que uma pessoa pode colocar nosso coração em frangalhos.

Amigos meus já tinha sido assaltados e descreveram um sentimento de ódio profundo, mortal… Se eu tivesse uma arma, matava o sujeito, diziam eles. Eu, na minha humilde burrice, senti vergonha.

Vergonha porque vi as pessoas sendo assaltadas ao meu redor e não fiz nada. Vergonha por ter me omitido e permitido que ele levasse o relógio do cara, a carteira da senhora. Senti uma vergonha absoluta, asco de mim mesmo. Tive vontade de pedir desculpa para aquelas pessoas, mas novamente faltou-me coragem. Mas, quem pode me culpar? O cara podia ter uma arma não é?

Desci um ponto depois em meu bairro, no meu ovo burguês, para minha costumeira segurança, com a convicção de que eu sou tão ruim quanto o homem que nos assaltou, pois minha passividade não é instintiva.

Um olho roxo para contar história, uma adrenalina a mais para não esquecer e o sentimento de culpa por, mais uma vez, me omitir como uma formiga num bolo de formigas desordenadas. Hoje foi quando a maldade bateu a porta de casa, e eu não vou me esquecer tão rápido.