Archive for July, 2006

Manifesto Bodyboarder

Tuesday, July 25th, 2006

Você está cercada de água por todos os lados. Faz horas que deixou a terra firme, sua constância, sua certeza de permanecer inteira. Agora é só o ritmo irresistível do swell, e a perspectiva de encontrar a onda perfeita, no final de tarde que se aproxima na praia dos seus sonhos. Em verdade, você não está dormindo; de repente percebeu que surfar é como sonhar, alternando sensações de vida e morte num intervalo curto de tempo.

Você vê onda vindo em sua direção e sorri, como que apaixonada. Rema com intensidade, posicionando-se da melhor forma possível, numa entrega sincera. Manda o bico pra frente e, como tantas vezes, espera ser capturada. Entendeu faz tempo que não existe e nunca existiu controle algum: o que está para acontecer é uma sintonia, uma viagem. Você abre mão da sua condição inerte e segura, escolhe um dos lados para cair e simplesmente deixa que a onda imprima velocidade a sua prancha, adrenalina ao seu sangue, paz ao seu espírito.

Agora você está no lip. A onda cresce cada vez mais rápido, cinco ou seis pés de altura, trazendo uma vertigem gostosa, viciante. Você permanece deitada, convicta de que dessa forma pode sentir o mar, cheirá-lo, ouví-lo…

Logo, o peso na crista fica insuportável e a onda pretende arrebentar. Mas, antes disso, você já fez sua escolha. Deixou os problemas pra trás, as confusões, as inseguranças, o medo, tudo ficou naquele lugar soerguido. Depois que você dropa, o mundo finalmente fica um lugar melhor. Você não pode parar, não pode fugir, tem que aceitar o ritmo da onda, surfá-la como se fosse a última coisa verdadeira na Terra.

Em instantes, ela engole você. Tudo que consegue discernir são as paredes cerradissímas, de um azul muito vivo, que deixam um corredor de mão única e sem volta. Qualquer hesitação é caldo na certa. Você acelera, bate os pés e não pensa em nada. A adrenalina preenche cada centímetro do seu corpo e você tem absoluta certeza que transcendeu.

Os raios de luz acertam seu rosto, um jato de água golpeia suas costas. Você está viva. Você gargalha, chora, não sabe o que faz. Superou o tubo. Deixa que a onda vá e tem uma desejo débil de acenar para ela, como que agradecendo o momento único vivido ali.

Tudo é bem simples dentro do mar. A vida e a morte interagem no mesmo tempo, no mesmo segundo, trazendo a tona uma realidade reconfortante: de fato, estamos vivos.

Da crueldade, um gole

Friday, July 7th, 2006

Andava sem jeito na rua, alta madrugada. As pessoas sempre riam dele, da sua forma de andar, dedicação aos estudos, seu soluço. Como odiava soluçar na frente dos outros.

Os outros. Permeavam sua vida desde sempre, com seu olhares superiores, suas vozes fortes, com seu estilo moderno. Nunca fora popular, nunca fora alguém que pudesse ser lembrado, a não ser pela mediocridade. E a cada passo que dava, torto, ombros curvados, era obrigado a olhar para a própria sombra e lembrar disso.

Gostava daquela parte do caminho de casa porque lá não havia iluminação. Não era possível ver seu corpo magro e indefeso rondando ao lado, e isso lhe dava alguma paz. Por alguns momentos, ele esquecia de quem era e até pensava em sorrir. Sorrir… Palavra que não conhecia direito.

Empurrado, caiu no asfalto, mãos sangrando, óculos quebrado. Me dá teu celular tua bolsa me dá alguma coisa boyzinho de merda vai logo. O homem não era muito maior que ele, mas tinha ferro na voz e uma arma na mão. Apontava-a com receio, indeciso. Continuou gritando as mesmas coisas, aumentando o tom, ciente de quem ninguém os escutava. Era alta madrugada, todos fingem dormir ao ouvir os gritos de ajuda.

Sua mente esvaziou. As pernas ficaram moles, não conseguia levantar. Ficará petrificado com aquele ataque repentino, aquele excesso de maldade. Mas, pensou, a maldade ele conheço.

Os sorrisos que nunca lhe tinham dado, os abraços que lhe foram negados, os beijos que ele nunca teve coragem de pedir. Podia não entender da felicidade, mas o script da vida cruel ele sabia de cor. Sentia ódio ao olhar-se no espelho logo de manhã, fúria. Tudo ele reprimia, cada rancor, cada bufada, cada olhar atravessado que gostaria de dar para as pessoas que tinham asco dele. Asco pelo que, ele pensava?! Chorava antes de dormir.

Levantou-se e, sem que qualquer pessoa do mundo pudesse esperar, tirou o corpo da linha de fogo e puxou a arma para si. Em instantes, segurava trêmulo o .38, apontando para seu algoz. Puxou o pino, armou a arma, como nos filmes.

Não via mais o homem de bem que teve um dia ruim e comprou uma arma para pagar o aluguel atrasado. Não via. Na sua frente, uma multidão se configurava, de rostos, de vozes, de coisas, de gestos, de xingamentos, de pontápes, de dedos em riste, de sangue, de gritos, de ódio, de tudo. Suas mãos, seu coração, pediam, imploravam, que atirasse, e colocasse um fim em todos aqueles que por motivo algum lhe tiravam a paz e a oportunidade à vida.

O tiro vôo pela alta madrugada, tingindo de sangue as paredes e a calçada, a roupa antes arrumada de um garoto desajustado que, de repente, gargalhava. Gargalhou como nunca.