Você está cercada de água por todos os lados. Faz horas que deixou a terra firme, sua constância, sua certeza de permanecer inteira. Agora é só o ritmo irresistível do swell, e a perspectiva de encontrar a onda perfeita, no final de tarde que se aproxima na praia dos seus sonhos. Em verdade, você não está dormindo; de repente percebeu que surfar é como sonhar, alternando sensações de vida e morte num intervalo curto de tempo.
Você vê onda vindo em sua direção e sorri, como que apaixonada. Rema com intensidade, posicionando-se da melhor forma possível, numa entrega sincera. Manda o bico pra frente e, como tantas vezes, espera ser capturada. Entendeu faz tempo que não existe e nunca existiu controle algum: o que está para acontecer é uma sintonia, uma viagem. Você abre mão da sua condição inerte e segura, escolhe um dos lados para cair e simplesmente deixa que a onda imprima velocidade a sua prancha, adrenalina ao seu sangue, paz ao seu espírito.
Agora você está no lip. A onda cresce cada vez mais rápido, cinco ou seis pés de altura, trazendo uma vertigem gostosa, viciante. Você permanece deitada, convicta de que dessa forma pode sentir o mar, cheirá-lo, ouví-lo…
Logo, o peso na crista fica insuportável e a onda pretende arrebentar. Mas, antes disso, você já fez sua escolha. Deixou os problemas pra trás, as confusões, as inseguranças, o medo, tudo ficou naquele lugar soerguido. Depois que você dropa, o mundo finalmente fica um lugar melhor. Você não pode parar, não pode fugir, tem que aceitar o ritmo da onda, surfá-la como se fosse a última coisa verdadeira na Terra.
Em instantes, ela engole você. Tudo que consegue discernir são as paredes cerradissímas, de um azul muito vivo, que deixam um corredor de mão única e sem volta. Qualquer hesitação é caldo na certa. Você acelera, bate os pés e não pensa em nada. A adrenalina preenche cada centímetro do seu corpo e você tem absoluta certeza que transcendeu.
Os raios de luz acertam seu rosto, um jato de água golpeia suas costas. Você está viva. Você gargalha, chora, não sabe o que faz. Superou o tubo. Deixa que a onda vá e tem uma desejo débil de acenar para ela, como que agradecendo o momento único vivido ali.
Tudo é bem simples dentro do mar. A vida e a morte interagem no mesmo tempo, no mesmo segundo, trazendo a tona uma realidade reconfortante: de fato, estamos vivos.
