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Motivos

Wednesday, August 9th, 2006
Ele olhou as estrelas e se sentiu sozinho no mundo.

Passou a mão pelos cabelos lisos, costume de infância. Nunca quis admitir, mas costumava fazé-lo quando se sentia nervoso. De fato estava nervoso, sentado no topo do prédio.

Balançava um pouco os pés, batendo o calcanhar na solidez da construção desabitada. Se tivesse imaginado que era tão fácil invadir uma obra, teria tomado a decisão antes.

Fechou os olhos; o vento batia suave em seu rosto. Não era frio que sentia, era um sossego. Mesmo com algumas buzinas soltas ao longe, mesmo com alguns gritos de casais infelizes, ainda assim aquele vento e aquelas estrelas conseguiam o notável efeito de solidão, embriaguez de sua consciência.

Aprumou-se um pouco, arriscou ficar ainda mais na beira do muro daquela varanda. Faltavam pintar alguns lugares do apartamento, fechar o encanamento do banheiro, arrumar uma porta bem grossa, para que os sons e resmungos não fluissem interferindo na vida alheia. Logo, essas paredes e salas escuras estariam sendo ocupadas por mais uma família burguesa; casal, dois filhos, um poodle para abrilhantar a foto para posteridade. Mas, qual posteridade? Cinco ou cinquenta anos faziam realmente diferença?

Era basicamente por isso que se encontrava naquela situação incomum. Acordou dois dias antes se perguntando qual era o motivo. Não de seu nascimento, não de suas escolhas. Não de sua atual infelicidade ou dos desastres sucessivos. Queria mesmo saber o motivo dos motivos.

Tomou seu café da manhã pensando nisso. Almoçou pensando nisso. Escovou os dentes, trabalhou pontualmente, seguiu rotinamente, fora de si. Um corpo andava e tomava café, mas sua mente vagava, buscando informações, razões, lógicas.

No terceiro dia, já não suportava mais. As coisas seguiam seu curso, mas porque? O sofrimento era evidente, mas ninguém largava seus problemas e se colocava de prontidão. Todos estavam preocupados apenas com o que conseguiam pegar, fazer, ouvir, cheirar, sentir, trepar, mas não se perguntavam o motivo. Até se perguntavam, mas deixavam a pergunta correr, taxando a de sem nexo. Não precisamos de um motivo, gritavam.

Mas ele de repente precisou. Não conseguia deixar essa idéia fixa, não conseguia pensar em qualquer outra coisa: não existia motivo. Então, porque prolongar uma existência que não se explica? Saiu de casa, deixando a porta aberta, escancarada. Andou dois quarteirões em direção aquela construção fantasma. Invadiu, subiu, sentou. E assim a madrugada foi rolando, o tempo foi correndo, mas o motivo não chegava.

Nessa situação extrema, na linha da vida e da morte, no último segundo, o motivo não aparecia. Então, porque supor que surgiria um dia?

Fumou um cigarro, tragando longamente e eufórico. Estava muito perto do niilismo absoluto.

Fechou os olhos e tentou recordar de sua vida anterior, antes da revelação do nada. Não conseguia. As risadas que dará, os momentos que passará, os beijos que roubará, as mulheres que tocará, os amigos que perderá, nada disso ele conseguia lembrar. Era tudo muito vago, como fantasmas circulando numa densa nuvem de desespero. Mas o esquecimento não o constrangerá; melhor, lhe dava forças para seguir em frente, não desistir, não entrar novamente no mundo ordenado onde todas as pessoas seguiam suas vidas e esqueciam o caos. Mesmo que tentasse, não conseguiria mais. Pois a verdade era essa: vivemos mergulhados no caos. Conseguimos de uma forma impressionante restringi-lo à alguns instantes, alguns momentos. De repende, a insegurança e o medo partem, voltam para o subcosciente humano. Sistematicamente, deixamos de ser felizes, almejamos coisas novas, então o medo volta para assumir de novo, como uma marola nas areias de Peruíbe, como um raio de luz infinitamente refletido.

Já não podia voltar atrás. Ergueu-se naquele parapeito e sentiu o vento mais forte; quase caiu para trás. Tinha que ficar levemente abaixado para poder manter-se. Olhou para baixo; nada de vertigens, nada de sensações instintivas; ele era um cara totalmente desprovido de normalidade.

Apalpou sua calça, encontrou a carteira. Abriu-a. Pegou seu RG e olho interrogativamente para aquela foto. Quem era aquele? Não sabia mais. Não importava realmente. Devolveu a documentação para a carteira preta e, com uma força desnecessária, jogou-a longe. Ele viu-a fazendo uma parábola e acertando o vidro de um carro.

Depois, talvez não precisasse jogar nada mais. No entanto, tomar o caminho de volta porque? Por quem? Não existia motivo. Nunca houve.

Foi quase um tropeço. Caiu como caem todos os corpos, convicto de que somente tinha antecipado o óbvio.

Anos depois, ninguém recordaria o nome daquele homem. Foi enterrado sem indentificação, pois não conseguiram localizar seu RG, cartão de crédito ou cheque especial.