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Evolução

Friday, June 1st, 2007

 

[Sabe que pode dormir pinto e acordar águia]

Essa frase despertou seu corpo, repentina, sufocante.

Calçou meias, por cima foi o chinelo. Jogou água na cara por duas vezes e, sem querer, abriu a porta de casa, para nunca mais voltar. Não sabia exatamente o que estava fazendo, apenas entendia a imperatividade da ordem. Sem confiança no elevador, usou as escadas. Ressonando, pares e mais pares de chinelos marchavam. Por pouco temerá que fosse o único que renascia naquela manhã.

O portão elétrico estava tombado no meio fio, retorcido, marcado por martelos, unhas. Havia mais destruição ao longo do caminho, causada por pessoas comuns, de bem, que saiam de todos os prédios, casas, comércios, usando pijamas, camisolas, pantufas, nada. A rua estava completamente tomada. Andavam sem ritmo, sem direção certa, sem qualquer ruído.

Desceu sua avenida. Continuou, buscando explicações. Queria entender qual era o cálculo utilizado na métrica e formação das nuvens; que estupidez permitia que uma das estrelas mais baratas do universo agraciasse de vida e luz um planeta tão ínfimo; ansiava o mistério, não sabia qual. Suas mãos, braços, pernas, todo seu ser, não apresentavam enigmas elegantes.

Algo latejava, de dentro para fora. A adrenalina aumentava de pouco em pouco, não parecia encontrar limites. Os músculos da face tremiam de forma elétrica, mãos abrindo e fechando, o corpo inteiro era uma pilha, uma usina. Os sintomas da doença repetiam-se em todos os homens, mulheres, crianças, advogados.

O trânsito finalmente cessará na cidade, livre da fumaça, do barulho, bitucas de cigarro. As ruas estavam tomadas de pessoas inquietas, ardentes. Todas sentiam as mesmas sensações desconhecidas. Era como se seus corpos tivessem deixado de responder aos desígnios antigos, quisessem algo novo. A cura, onde estava? Cura para a intensidade d’alma querendo sair pelos poros, cura para a sensibilidade extraordinária da pele, que agora captava toques, ritmos, vibrações, transformando tudo em êxtase, orgasmo. O mundo parecia a dois segundos de explodir.

Havia esse carro. Largado no meio da rua, sem dono, proprietário resoluto e pagador de impostos, tornara-se obstáculo deplorável, como pedra no caminho. Por isso, e nada além disso, ela subiu em seu capô, engatinho até o teto do agora amassado veículo, pretendeu dar um gracioso salto doravante. Não precisava dar a volta, podia passar por cima, se quisesse. Mas não o fez.

Olhou o horizonte. Suas pernas ficaram moles, sua boca seca. Sentia alguma tão doce, tão pura, tão leve, que não poderia ser humana, deste mundo. Um sentimento corria por tudo que lhe chamava seu, pronto, retesado, só esperando um último gesto. Que foi esse: 

[Afinal abriu seus braços, fechou seus olhos, deixou que seu diáfano espírito contaminasse seu cansado corpo e, no começo devagar, mas depois com velocidade e força, subiu aos céus, como que nascida com asas e com a habilidade inata de ser feliz]

Respondendo ao sonho, todos se desprenderam do chão. Sorriam, porque não levavam nada consigo. Dinheiro, problemas, aflições, medos. Tudo tinha ficado para trás, participantes de uma vida anterior, escura, por hora esquecida. Cruzando as nuvens, tomando fôlego e descendo vertiginosamente, não havia pedaços para se repartir, não havia tempo de sentir inveja, impostos, solidão. Todos foram contaminados por essa simplicidade, de poder voar.

[Sobraram doze crianças. Tinham aprendido que o mundo precisa ser salvo e ficaram infelizes por não precisarem mais salvar ninguém. Queriam atenção, respeito, sacrifício. Assaltaram uma loja. Tudo que levaram: balas e rifles. Iam acabar com toda essa palhaçada. Se não podiam voar, ninguém mais o faria]