No mais rubro pôr-do-sol, dia fresco de junho em terra de São Pedro, interior de São Paulo, Carlos contava as nuvens, sentado em rede larga, casa de seu tio. Na varanda espaçosa, cheia de grandes e pequenos vasos, com flores e plantas de toda espécie, balançava sem ritmo, usando o pé contra a parede. Cantarolava um jazz antigo, assobiava certa valsa que nunca dançou, aguardando que a noite alcançasse sua morada. Primeiro o portão baixo, de ferro enferrujado, que destoava com o muro pintado de verde musgo recentemente. Depois o quintal de terra batida, com pedacinhos de mato crescendo em alguns pontos isolados. Enfim, esperava que a noite viesse e tocasse seus calcanhares, enroscados na rede remendada. O tempo desacelerava em São Pedro , sem qualquer pressa de fatos novos, agitação.
Ao sinal dos primeiros mosquitos, levantou-se. Tomou copo de água num gole só, vestiu uma camiseta regata, amarela, acenou para o velho tio, afundado no sofá em frente a televisão e, sorrateiro, furtou as chaves da moto. Não sabia marca, não tinha documentos. Destino.
Fazia questão de parar em cada farol, cada lombada, acelerar. Queria ser visto. Sua solidão era aplacada quando observado atentamente por um passante mediano, ou fisgado ardentemente por um olhar de nativa. Gostava de estudar os olhos curiosos da população, as casas sempre iguais, as repetidas praças e igrejas, sua prefeitura, de medidas rudes e quadradas. E, pensando no motivo de alguém querer trocar aquela tranqüilidade pela vida feroz e incerta do asfalto quente de São Paulo, encontrou sem querer algo que procurava sem saber: um bar de esquina.
Três mesas do lado de fora, cheias. Subindo um degrau, surgia um comprido balcão, duas atendentes, o dono. Mais mesas nos fundos, dominadas pelos bons bebedores, convictos de que a noite seria longa. Movimento, confusão, tumulto.
Pegou uma cerveja, sentou na beirada de um banco da praça, bem próximo, deixou-se no exame intenso dos atos, das risadas, de um bar em começo de atividades, cheio de pequenos desentendimentos e emoções.
Viu garotos de boné, camisetas estampadas, todos guardando certo carro azul claro, estacionado próximo ao meio fio. O porta-malas aberto revelava um sistema de som respeitável, que fornecia música para todos os consumidores do bar.
Outro grupo, misto, desencanará da cerveja e trocava goles no gargalho de uma vodka barata. O som das risadas aumentava na medida em que todos iam ficando mais bêbados, os desafios mais graves, as investidas mais certeiras. Era com muita naturalidade que se formavam os casais. Saíam em busca dos cantos mais sujos e escuros da pracinha, onde a luz dos postes velhos não alcançava. Mãos subiam e desciam, corpos avolumavam-se colados um ao outro, olhos fechados.
Todos estavam acostumados àquela rotina boêmia. Conheciam os passos, tinham ensaiado desde tenra infância os movimentos essenciais de uma noite sem grandes objetivos, aproveitada só para o prazer. Quando não se combinava com o ambiente, a solução era simples: beber mais.

Lá pela terceira garrafa (Carlos era forte), criou coragem para jogar truco. Todos os tipos de interioranos podiam ser encontrados ali, buscando quem sabe adrenalina, quem sabe respeito. Não se considerava um jogador excelente, mas tinha consciência de que encontraria satisfação, apaziguamento naquelas cartas. Abarrotada de expectadores ansiosos pela primeira briga, foi buscando espaço perto da mesa. Quando chegou, foi logo qualificado como próximo. Colocou o dinheiro na mesa, a cerveja no chão.
Não esperava que sua dupla fosse uma garota. Ela conhecia os sinais básicos, jogava num estilo parecido com seu, sem medo, chamando atenção. Bebia largos goles de um líquido claro, que podia ser água, podia ser pinga. Quando não olhava fixa para as cartas, despejava simpatia para todos que lhe dirigiam sorrisos. Carlos adivinhou que ou ela era muito ingênua - não percebia os trejeitos que lhe dirigiam - ou tinha plena convicção de sua beleza, de seu encanto. Perderam o primeiro jogo.
Descobriu que o líquido claro era pinga, e não recusou, não poderia. Ela conseguirá uma garrafa com o dono do bar, seu conhecido. Enchia o copo incansavelmente, sem intervalos.
Foi inevitável o contato, imperativo. Um dedo que passava sem intenção por um cotovelo, um queixo que caía tranqüilo numa testa. Dois ombros que se trombavam, duas bocas que quase se tocavam, arrepios. Duas mãos desconhecidas enlaçando-se com força, sem motivo. Carinho na nuca dela, cafuné no cabelo dele. Carlos era fraco com mulheres. Não conseguia deixar de sentir vertigens toda vez que ela buscava apoio na sua cintura, proteção.
Quando sentaram novamente na mesa, tinham tanta intimidade aflorada, tantos segredinhos safados e impuros, que não puderam ser removidos dali. Ganhavam jogo atrás de jogo, com habilidade, malícia. O dinheiro era usado para pagar a bebida dos perdedores que, afogados em cerveja, deixavam de brigar. Esbanjavam boa sorte, subiam na cadeira, gritavam, venciam.
Mas foi difícil para Carlos. O problema não era técnico, obviamente. Toda vez que olhava para ela, a fim de captar os sinais, os preceitos pra vencer aquela rodada específica, perdia-se. Quando ela piscava, quando mandava beijinhos, quando colocava a língua para fora. Cada manilha era um sofrimento para ele, que sentia em seu corpo ansiedade, ciúme, tesão, e mais, e menos. A bebida subia na cabeça com força, o cheiro de cigarro dominava o ambiente, mas ele nem notava.
Fugiram de mãos dadas do bar. Ela arrastou Carlos, correndo, pulando. Estavam bêbados e extasiados com um novo medo: terem encontrado sua alma gêmea. Eram jovens, tinham tanto a desvendar, tantas pessoas para conhecer. Nem achavam que isso existia. Só nos contos.
Caíram numa relva seca, campo aberto, perto dos limites urbanos. Estavam cansados, mas não percebiam. Nem a areia, nem o suor, nem o mato recém carpido, que pinicava as costas dela. Ela tinha os cabelos lisos e castanhos mais lindos que ele já tocará. Ela tinha no rosto redondo pintinhas tão leves, no sorriso um brilho tão inquestionável. Ela não era alta, não tinha corpo de atleta, mas possuía uma graça indispensável às mulheres inesquecíveis, um gingado feminino, uma realeza leonina. O tempo em São Pedro acelerava, demente, louco, não aceitando que Carlos aproveitasse a vida tão intensamente.
Cada beijo terminava com respiração ofegante, vazada, alta. Cada toque roubava dos dois o pudor, a sensatez, o medo, deixava-os mais livres. Começaram rápido, ansiosos, desesperados para encontrar a nudez um do outro. Carlos beijava cada centímetro do corpo dela, mordia, apertava contra si, buscava de alguma forma unificar os pecados num só. Quando delicadamente ela entreabriu as coxas, ele invadiu sua imensidão como um dilúvio, buscou sua flor extrema como necessidade última.
Penetrava sem pressa, com vontade, mas sem pressa. As vezes fechava os olhos, com medo de abriu-los e descobrir que sonhava. E quando os abria, via finalmente sua alma gêmea revelada, extasiada, sentia na sua pele aquela tão suave, tão doce.
Os gemidos baixos e descompassados, a boca entreaberta. A cada gesto Carlos sentia uma onda de prazer imensurável. O orgasmo chegou para os dois como a luz do sol, que inexoravelmente rompe a noite. Eles não queriam que terminasse jamais.
Os corpos cansados e abraçados prostraram-se deitados na relva seca, sem pudor. Carlos fingia que dormia, quando ela foi embora. Ela fingia indiferença, enquanto vestia o jeans, a blusa cinza, prendia os cabelos, ensaiava passos de despedida. Nunca mais encontraram algo semelhante em suas vidas. Pela fugacidade, pelo ardor, pela necessidade intempestiva de consumir-se, de retirar a paz um do outro, que se reconheceram como predestinados.
Quando chegou a casa do tio, transpassou o portão de ferro, subiu os degraus, encostou com carinho a velha porta. Carlos encontrou-o dormindo no sofá, televisão ligada. Sorriu com indiferença. Continuou sorrindo quando constatou que não encontrava as chaves da moto, nem sua carteira, nem seu celular, nem sua esperança de ser feliz de novo.
Ainda sim, tirou a camiseta, deitou na rede larga, ficou contando as nuvens, dormiu um sono sem sonhos, sem vozes, sem nada. Deixou que sua alma esquecesse o que tinha perdido. Só muito tempo depois, atarefado em seu escritório na Paulista, divorciado, vice-campeão de squash na academia do bairro, Carlos lembrou que ela sussurrou de repente “te amo”.