
Reformaram a Avenida Paulista.
Agora, nas calçadas lisas de cimento,
Nenhum salto alto fica preso.
Reduziram à metade o número tombos e tropeços.
Modernidade vem chegando, minha gente.
Na cidade cosmopolita de ninguém.
O asfalto não possui herdeiro certo,
A nobreza se misturou com a plebe, português, italiano.
O sangue paulistano é vermelho, mas misturado.
Um rubro tão ardente e mal-humorado.
Suícida compra sunday de baunilha no mc,
O florista vende balas, doces (não é juquinha, não é bombom),
Erudito santo com olhos marejados distribui panfletos cinzentos:
Mãe Pá, faz amarrações, conta o destino certo, traça mapa astral.
Dá, garantia.
Ninguém percebe o incontente estagiário,
No terno falta um botão fundamental,
Na alma tem ausência, saudade não sabe do que.
Os fones de ouvido salvam sua paciência,
Do crédito fácil, da proposta indecente,
Das buzinas e perguntas ordinárias:
Onde fica tal? Que horas são? Chove?
Antes da escadaria do metrô, exercício aérobico indispensável,
Cruzo com dois músicos mal vestidos, como eu,
Tocando qualquer coisa em violino e violoncelo.
Primeiro passo, como quem deixa para trás,
Uma árvore recém plantada no bairro,
Olhar de simpatia para o cachorro do açogue.
Sabe?
Mas outra força faz meu corpo estacar,
E a música interrompe meus esquemas mais certos,
Dialoga sem permissão com meus desejos inconfessos.
Escuto a melodia até o fim,
Ciente do descompasso ritmico, das notas desafinadas,
Da péssima qualidade dos instrumentos e seus portadores.
Ainda assim, caminhos dez passos, como soldado,
Enfio a mão no bolso do paletó barato, sorrindo,
E as moedas da condução necessária, deixo aos pés dos sem talento.
Dos incessantes, dos envolventes, dos imprestáveis músicos do metrô.
Não sei como volto pra casa, meu bem.
Mas volto com o coração leve, quase de não sentir bater,
E resoluto de que é possível ser um sonhador.
Reformaram a Avenida Paulista,
Tentaram reformar minha esperança também.
Preço foi barato, só uns trocados.
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