Neste mês de março, meu blog completa três anos de existência. Pensei, anteriormente, em escrever qualquer coisa que marcasse a presente data de maneira digna. Afinal, é notável que algo tão efêmero tenha durado tanto tempo. Um poema ou um breve conto, quem sabe. No entanto, nada me ocorreu. Não sendo escritor de ofício, nem poeta de qualidade, é bem comum que em determinadas épocas da vida não me surja inspiração. Meu barco sempre esteve a merce do vento, é verdade. Se esse não sopra, não há movimento na minha embarcação. Fico pasmando e observando, resoluto, os peixes pularem, as estrelas pintarem de repente o céu de chumbo.
Quantas coisas eu contava antigamente, quanto do meu próprio sangue usava para pixar esse monitor brilhante. No começo, inocentemente, abria o navegador do antigo weblogger e sem remissão alguma dizia letra por letra dos meus amores, dos meus anseios e desolações. Entre uma frase fraca e outra elaborada, foram surgindo contos. Violentos, intensos. Depois cresceu a coragem de publicar meus poemas bobos. Assim fui levando, as vezes com celeridade, as vezes em intervalos trimestrais.
Certo dia, tive que decidir entre a clareza de um diário e a subjetividade dos contos e poemas. Não demorei a entender que mesmo relatando o mais mudano dos fatos, fica algo no ar, certo mistério, e que em todas as minhas ficções sempre existeram trocentas confissões para qualquer leitor ligeramente atento.
Eis que estamos aqui hoje. Relendo certas coisas, não me encontro. Em outras, acho repetições escrotas, sínteses harmônicas, enfim, nada que me eleve ou que me rebaixe.
Três anos. Trinta e seis meses. Milhares de dias. Milhões de horas, perdido, na esperança de achar o verso certo, mesmo na atividade mecânica e imprestável do meu labor jurídico.
Dois amores. Centenas de paixões imensuráveis, para um pobre poeta que nunca aprendeu de verdade: como conviver com o próprio desejo? Milhares de mulheres fugazes, que por um segundo a mais ou a menos não vingaram à última esperança: viver em paz ao lado de alguém.
Milhares de amizades instantâneas, movidas por alcóol ou partida de futebol. Centenas de colegas. Dezenas de amigos e alguns poucos e bravos irmãos que, apesar da passagem incansável do tempo, não mudam o jeito sincero de gargalhar, não se apegam a essa moda cretina de negar o que realmente são.
Esses números não precisam como será o futuro. Se um dia vou abandonar esse blog e seus mistérios; se, ao contrário, vou deixar pra lá o resto do mundo, e correr em direção a qualquer vislumbre de talento. Não sei. E, definitivamente, essa parece ser a única e irrevogável lei de minha vida: o imprevisível. Até o último dia da minha existência serei a esperança de nunca permanecer o mesmo. A febre de acalentar constantemente a mudança. O inverno rigoroso que, cansado das determinações antigas, surge antes do verão.
(E talvez por isso meu coração só siga leve no mar. Quando eu deslizo pela base da onda, meus cinco sentidos se multiplicam em busca de segurança. Uma vertigem clara se espalha por cada memória e desejo. O corpo quer escapar. Veja: alma compreende primeiro que aquilo não é morrer. É viver. Por isso remamos de volta ao outside. Existe unidade, existe uma breve certeza, existe magia, pois, aquele momento, meu bem, nunca irá se repetir).
Tem andado estranho, mas já cansei de dizer isso…
Espero que esteja feliz, ao menos!
Baci