Apnéia

Herdei um sobrado de madeira, construído nas areias de uma praia distante. Com curtos pilares em sua base, muitas portas e janelas, a estrutura parecia frágil, pronta para voar. Havia tábuas velhas no chão da varanda, buracos na escada que levava ao sótão, lâmpadas queimadas, princípios de cupim. O desconforto era evidente. Mas, mal nascia o dia, raios inundavam cada canto dos quartos, perfuravam cada falha nas paredes. Eu acordava, escutando as meninices e asneiras do mar. Soltava meu cachorro, esticava minhas pernas; agradecia pela graça indivisível de viver mais um dia.

Quando não admira as ondas, e tirava de suas formas a explicação fundamental, queria encontrar teu corpo vagueando perto da minha sombra; queria te achar deitada em minha cama, fingindo sem sucesso que ainda dormia; queria te abraçar quando, sentada no balcão da cozinha, desejava ardentemente salvar o mundo. Eu te contava meus segredos, pedia todos os dias permissão para recalcular com meus dedos as medidas do teu corpo. As vezes trocávamos a língua pátria por suspiros. Teus gestos tinham ondulações específicas; teus olhos me tornaram exímio praticante de apnéia - já podia ficar dois meses sem respirar.

Nessa existência repleta de horizontes e tempestades, nossas ambições foram aplacadas pela presença do mar. Não lembrávamos das vontades orientadas pela mídia; não tomávamos conhecimento das novas leis tributárias; não sufocávamos nossos amigos com fofocas. Ocupávamos o tempo sem ocupá-lo de verdade.

Certo dia, me dei conta que as ondas nunca embaralhavam. Sentei na areia branca e, deixando a contemplação de lado, investiguei cada marola, cada vala formada. Percebi então um padrão fixo na espessura da crista, um ponto exato onde as melhores séries quebravam. Não existia imprevisibilidade, mutação. As ondas se repetiam, como se um garoto jogasse uma mesma pedra, sempre com a mesma força, na piscina do clube, num domingo de tarde. Entrei temeroso no mar, nadei e percebi que a temperatura nunca mudava, o fundo de areia reagia impassível as minhas passadas. Lembrei finalmente de um outro mar, onde a perfeição era baseada exatamente na impossibilidade de repetição, na eterna novidade que cada nova maré trazia. Uma tristeza sem precedentes atacou minha alma, e eu acordei.

Hoje sento nas praias cheias de banhistas, vendedores, catadores de latinha, pseudo surfistas e não sinto saudade nenhuma daquele mar, daquele sobrado. Em compensação, conto os dias, as horas e os minutos para sentir sua presença novamente, por que pressinto que se fui apaixonado por sua miragem, por uma representação de sua essência, vou morrer de amores por sua forma real, imperfeita e incorreta.
.

3 Responses

  1. Nampo says:

    Cara… e você ainda tem a pachorra de falar na minha cara que não fuma…

  2. Rachel says:

    Lucas!
    que divino o poema abaixo!
    nossa tenho muito para ler!!!
    PARABÉNS!
    estou tentando te colocar como link no meu blog mas tá difícil… =/
    sou ruim para essas coisas!!!
    enfim… que se sinta sempre inspirado!!!
    beijos* Rachel

Leave a Reply