só do essencial

Acordar de manhã faz parte da rotina de qualquer filho da classe média, ansioso por um futuro cheio de tranquilidade. Ir para o trabalho em um ônibus lotado, talvez pegar aquela antiga mala do colégio, encher de livros jurídicos e frequentar a faculdade. Não importa. É preciso dormir pouco, trabalhar muito, estudar. Tudo durante a semana. Mas, nos sábados e domingos, a boa idéia é permancer na cama mesmo depois do despertar, enrolando, resmungando, esperando que algum imperativo do destino obrigue o abandono da preguiça e do descanço merecido.

O mar é um imperativo na minha vida.

São 8:00, o céu está nublado, feio. Eu olho as ondas da praia do Tombo, não consigo pensar em nada, só no vento gelado mexendo as folhas das árvores, furando minha pele com farpas. Seu cessar é um alívio, seu retorno um sortilégio. Bem, eu podia guardar a prancha na capa, deixar os pés de pato encostados, dormir um sono leve na rede do apartamento.

Corro até a beira da água. O movimento repentino afasta a sensação de que meu corpo vai congelar. Começa então o sacrifício. O surfista deve ceder grande parte da sua energia em remadas incansáveis em direção ao outside, afundando, voltando, respirando apressado, como louco. Cada onda ultrapassada faz com que prancha volte alguns metros, tornando o trabalho exaustivo, um jogo de paciência que nem todos conseguem vencer. Um local decente conhece todos os pontos certos onde pode ultrapassar. A um paulistano afoito resta testar a sua sorte. Talvez Netuno repare meu esforço atípico e abra os braços, em uma recepção calorosa.

Quase a eternidade até a arrebentação. Ao sentar na prancha e constatar que sacrifício foi concluído, advém o primeiro sorriso. Enquanto recupero minhas energias, observo outros shapes rasgando a crista, outros braços tocando a parede das ondas gordas. Vejo se há mulheres, se existe mais algum bodyboarder dentro da água.

Percebo o nível técnico acentuado dos companheiros dessa manhã. Todos possuem uma base sólida, atravessam a onda em linhas específícas, tiram muita água em cada batida. Antes do estalo, de entender exatamento onde acabei entrando, escuto os gritos de um surfitas, numa lycra vermelha.

- Doidão, é campeonato!

Não sei se soco a água gelada, com raiva. Não sei se dropo a melhor onda da série, e pergunto pro o juri o que acharam da minha atuação.

São 11:00, eu mudo de praia, mas o céu continua o mesmo. Agora estou em Pitangueiras e carrego o castigo de desbravar mares que não estão a minha altura: caimbra. Ele ataca terrível a panturilha esquerda, trazendo dor, insatisfação, vontade de entregar os pontos, secar a prancha, guardar os pés de pato na garagem, deitar naquela rede espaçosa…

Eu corro pro mar com medo das séries maiores, da inevitável dor na perna e, mesmo tendo que sair outras três vezes para esperar passar a caimbra, sou recompensado com as ondas buraco, os momentos memoráveis, que vão permear as horas e os minutos da minha labuta jurídica. Me salvar dos problemas maiores, dos dilemas da alma, das provas repentinas que devemos ao mundo.

Faço uma prece pra Netuno antes de dormir.


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5 Responses

  1. Anonymous says:

    Pra que surfar o fim de semana? Pra que voltar pra babilonica sao paulo? Nao deixe que momentos importantes de surf sejam horas ou minutos de imaginacao. Faca do que voce gosta sua realidade. Surfe mais, trabalhe menos, estude menos. Termine a faculdade e va viver na praia. Nao corra o risco de se tornar um advogado gordo, que usa o anel da OAB no dedo mindinho, suando horrores na fila de algum forum que fede a processos, em busca de alguma causa estupida e burocratica. Aproveite sua juventude. Suas pernas nao ficarao mais ageis e fortes com o tempo, seus bracos nao melhorarao sua remada carregando processos. O tempo esta passando e voce nao esta ficando mais jovem.

    Va viver na praia. Nesse momento quebram ondas perfeitas em algum paraiso distante de nome impronunciavel. O mundo ‘e um lugar cheio de amigos e namoradas que voce nao conhece. Jogue tudo pro alto! Nao aposte no futuro. Nao espere recompensas por uma vida de sacrificios. Disfrute o presente.

    Abracos,

    Anyone Anywhere

  2. Rachel says:

    Não é necessário surfar para se apaixonar pelo mar.
    Entendo sua paixão! E assino em baixo!
    beijos*
    Rachel

  3. Dri Sandoval says:

    Fazia tempo que eu não lia seus textos. Já tinha esquecido de como era bom lê-los.
    Ônibus lotado de manhã? Aposto que é o Princesa Isabel! hahaha

    Bjss

  4. FCS says:

    O mar é o melhor remédio para se esquecer dos problemas cabulosos da semana!
    Beijocas

  5. Pati says:

    Morar perto do mar é um privilégio. Sempre morei longe dele, e passei alguns meses acordando com o Atlântico Norte bem na minha janela, coisa linda de meu deus. Melhor época da minha vida. Só me arrependo por não ter feito aulas de surf. Mas here I am again, no meio do mar de montanhas e longe da água salgada, infelizmente.

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