Imagine se o tempo todo você sentisse aquilo outside te oferece. Não falo do sopro de vida no ato de dropar uma onda, de construir linhas inexatas sobre sua superfície lisa, observando enquanto aquela massa de água se precipita e em alguns segundos explode sobre seu corpo e prancha. Seria injusto, um bando de homens e mulheres felizes demais para parecerem normais, fazendo coisas inúteis e sorrindo, assobiando. Falo da paz, da plenitude, do sentimento de vazio que te preenche e te engole, tornando você um viciado por aquele horizonte azul, um solitário sempre esperando, aguardando, sabendo que o próximo momento sempre vai ser bem melhor. Não é alegria, mas uma certeza de que a resposta para todas as nossas perguntas está logo ali. De que o medo que sentimos tem fundamento: ele nasceu para ser superado.
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Archive for December, 2008
Monday, December 29th, 2008
Nunca é só um beijo
Wednesday, December 17th, 2008
O movimento da saia da loira chamou minha atenção, mas foram os olhos da morena que me anestesiaram para todo resto, música, álcool, risadas. O copo não caiu por um milagre.
Alguém puxava meu braço insistentemente. Não entendia que eu receberá um tipo de ordem irremovível, uma missão de salvamento. Da minha alma, da minha condição de homem inquieto. Tive que afastá-lo com uma cotovelada, sem outras palavras.
Caminhei passos no meio da multidão, sorrindo, eufórico. Ela já não sustentava seus olhos nos meus, dançava com sua amiga, braços no ar. Não importava. Confesso minha fraqueza: mulheres. Seus corpos se mexendo no ritmo da música apagam meus conceitos mais certos, como orgulho, amor próprio, respeito. Assim, constantemente sou fisgado. Viro um bandeirante português, rompendo o mato cerrado a minha frente com um facão, adentrando no mistério absoluto da alma feminina, da pele quente da mulher que transforma meu sangue
em fumaça. Fumaça pura.
Elas tinham um jeito, um rebolado efervescente, contagiante. Os caras mais próximos estufavam o peito, as invejosas caprichavam nas caras, nas bocas, tentando me retirar do meu destino. Morena.
Então novamente eram olhos. A leveza do verde, as sobrancelhas bem delineadas, uma maneira doce de franzir a testa, encolher a vista como se olhasse além de mim, desconectada do momento, livre do meu poder. Ela oferecia um desafio claro. Dizia com aquele meio sorriso que eu nunca a teria em meus braços, que não poderia brincar no seu umbigo, que não faria marcas em seu corpo, destroços em seu coração. Contei isso pra ela.
Contei mais coisas. Falei da minha vontade de pegá-la no colo e levá-la para conhecer os mais diversos paraísos do mundo, de carro, de nave, de caiaque. Confessei que queria vê-la nua, na varanda, olhando perdida as aves libertas, sobrevoando a rude arrogância do mar, enquanto eu observava suas costas, seus quadris. Disse-lhe então que a amaria tão forte, tão grande, que meu desejo abarcaria todo inverno e, inconcebível, aqueceria os mais tristes corações. Seríamos amantes, inventando novas normas na cama, como duas crianças que reaprendem toda arte de transar. Gritaríamos um pelo outro, simplesmente.
Suponho que ela não tenha escutado claramente nada disso. O som era muito alto. Entretanto, gostava da minha aproximação; as mãos ganhavam espaço. Primeiro os dedos finos, um anel acusador. A outra mão escapou pela cintura, nos braços. Logo peguei em sua nuca, como a martelada ante ao topo da montanha, certo que a tão esperada Nirvana estava a alguns palmos dali.
Fui empurrando nossos corpos contra a coluna de mármore. Sua amiga loira nos deixará a sós. Na realidade, tive certeza de que todas as pessoas na balada tinham ido embora, resignadas, compreendendo nossa necessidade última. Nossa respiração era sôfrega, por que nunca é só um beijo. Nunca é só uma ficada, nunca é só uma transa. Cada segundo é o derradeiro, por isso eu teimo com a rotina, com o cansaço, com o comum. Eu queimo a largada, eu antecipo o soco. Intenso, arrasto minha lírica aos retirantes do circo, aos executivos no prédio paulistano, as morenas da balada.
A loira voltou. Puxou a amiga pelo braço, dizendo que era hora de dar tchau. Não insisti para que ficasse, permiti que partisse sem deixar nome, endereço, formação acadêmica.
Então, quando achei que era hora de encontrar meus amigos fraternos, olhei um movimento irresistível próximo ao bar, alguma coisa tão luminosa quanto a luz do primeiro dia de verão rompendo a copa das mais altas árvores. Era um sorriso. Tinha uma leveza, um desapego, como se não pudesse ser capturado, minimizado. Naquele momento, mais do que nunca, eu estava perdidamente apaixonado. Essa era ruiva. Caminhei passos decididos no meio da multidão.
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