Parabéns pra você…

March 5th, 2008 | lukasmaio
Neste mês de março, meu blog completa três anos de existência. Pensei, anteriormente, em escrever qualquer coisa que marcasse a presente data de maneira digna. Afinal, é notável que algo tão efêmero tenha durado tanto tempo. Um poema ou um breve conto, quem sabe. No entanto, nada me ocorreu. Não sendo escritor de ofício, nem poeta de qualidade, é bem comum que em determinadas épocas da vida não me surja inspiração. Meu barco sempre esteve a merce do vento, é verdade. Se esse não sopra, não há movimento na minha embarcação. Fico pasmando e observando, resoluto, os peixes pularem, as estrelas pintarem de repente o céu de chumbo.

Quantas coisas eu contava antigamente, quanto do meu próprio sangue usava para pixar esse monitor brilhante. No começo, inocentemente, abria o navegador do antigo weblogger e sem remissão alguma dizia letra por letra dos meus amores, dos meus anseios e desolações. Entre uma frase fraca e outra elaborada, foram surgindo contos. Violentos, intensos. Depois cresceu a coragem de publicar meus poemas bobos. Assim fui levando, as vezes com celeridade, as vezes em intervalos trimestrais.

Certo dia, tive que decidir entre a clareza de um diário e a subjetividade dos contos e poemas. Não demorei a entender que mesmo relatando o mais mudano dos fatos, fica algo no ar, certo mistério, e que em todas as minhas ficções sempre existeram trocentas confissões para qualquer leitor ligeramente atento.

Eis que estamos aqui hoje. Relendo certas coisas, não me encontro. Em outras, acho repetições escrotas, sínteses harmônicas, enfim, nada que me eleve ou que me rebaixe.

Três anos. Trinta e seis meses. Milhares de dias. Milhões de horas, perdido, na esperança de achar o verso certo, mesmo na atividade mecânica e imprestável do meu labor jurídico.

Dois amores. Centenas de paixões imensuráveis, para um pobre poeta que nunca aprendeu de verdade: como conviver com o próprio desejo? Milhares de mulheres fugazes, que por um segundo a mais ou a menos não vingaram à última esperança: viver em paz ao lado de alguém.

Milhares de amizades instantâneas, movidas por alcóol ou partida de futebol. Centenas de colegas. Dezenas de amigos e alguns poucos e bravos irmãos que, apesar da passagem incansável do tempo, não mudam o jeito sincero de gargalhar, não se apegam a essa moda cretina de negar o que realmente são.

Esses números não precisam como será o futuro. Se um dia vou abandonar esse blog e seus mistérios; se, ao contrário, vou deixar pra lá o resto do mundo, e correr em direção a qualquer vislumbre de talento. Não sei. E, definitivamente, essa parece ser a única e irrevogável lei de minha vida: o imprevisível. Até o último dia da minha existência serei a esperança de nunca permanecer o mesmo. A febre de acalentar constantemente a mudança. O inverno rigoroso que, cansado das determinações antigas, surge antes do verão.

(E talvez por isso meu coração só siga leve no mar. Quando eu deslizo pela base da onda, meus cinco sentidos se multiplicam em busca de segurança. Uma vertigem clara se espalha por cada memória e desejo. O corpo quer escapar. Veja: alma compreende primeiro que aquilo não é morrer. É viver. Por isso remamos de volta ao outside. Existe unidade, existe uma breve certeza, existe magia, pois, aquele momento, meu bem, nunca irá se repetir).

Reformaram a Paulista

January 20th, 2008 | lukasmaio

Reformaram a Avenida Paulista.

Agora, nas calçadas lisas de cimento,

Nenhum salto alto fica preso.

Reduziram à metade o número tombos e tropeços.

Modernidade vem chegando, minha gente.

Na cidade cosmopolita de ninguém.
 

O asfalto não possui herdeiro certo,

A nobreza se misturou com a plebe, português, italiano.

O sangue paulistano é vermelho, mas misturado.
 

Um rubro tão ardente e mal-humorado.


Suícida compra sunday de baunilha no mc,

O florista vende balas, doces (não é juquinha, não é bombom),

Erudito santo com olhos marejados distribui panfletos cinzentos:


Mãe Pá, faz amarrações, conta o destino certo, traça mapa astral.


Dá, garantia.


Ninguém percebe o incontente estagiário,

No terno falta um botão fundamental,

Na alma tem ausência, saudade não sabe do que.


Os fones de ouvido salvam sua paciência,

Do crédito fácil, da proposta indecente,

Das buzinas e perguntas ordinárias:


Onde fica tal? Que horas são? Chove?


Antes da escadaria do metrô, exercício aérobico indispensável,

Cruzo com dois músicos mal vestidos, como eu,

Tocando qualquer coisa em violino e violoncelo.


Primeiro passo, como quem deixa para trás,

Uma árvore recém plantada no bairro,

Olhar de simpatia para o cachorro do açogue.


Sabe?


Mas outra força faz meu corpo estacar,

E a música interrompe meus esquemas mais certos,

Dialoga sem permissão com meus desejos inconfessos.


Escuto a melodia até o fim,

Ciente do descompasso ritmico, das notas desafinadas,

Da péssima qualidade dos instrumentos e seus portadores.


Ainda assim, caminhos dez passos, como soldado,

Enfio a mão no bolso do paletó barato, sorrindo,

E as moedas da condução necessária, deixo aos pés dos sem talento.


Dos incessantes, dos envolventes, dos imprestáveis músicos do metrô.


Não sei como volto pra casa, meu bem.


Mas volto com o coração leve, quase de não sentir bater,

E resoluto de que é possível ser um sonhador.

Reformaram a Avenida Paulista,


Tentaram reformar minha esperança também.

Preço foi barato, só uns trocados.

.

parede de escudos

January 14th, 2008 | lukasmaio

São tropas ordenadas por bandeiras
Vibrando símbolos de crueldade e
Desesperança,

São feras privadas da alimentação
Ordinária, sedentas por sangue e
Fraqueza alheia,

São fileiras de magos e druidas e bruxos
Compondo feitiços ínfames, bebendo poções
Esquecidas,

Contra tudo isso,
Nas areias dessa praia de janeiro,
Disponho dos meus modos breves,
Da minha poesia falida.

Quem vence essa luta, meu bem?
De um lado, a certeza que tens
Nunca seremos nada.

Do outro, meu olhar vago e distante
Perguntando para onde foram as aves
E aquela francesa, escondida e perdida,

Atrás de um exército treinado
Especificamente para não amar.

Olhos tristes

November 24th, 2007 | lukasmaio

Antes um sobrado sem graça e sem limpeza, agora uma tocha incandescente que atraía curiosos sem culpa. O incêndio não exibia motivos, respostas. Ardia com um fervor religioso e era por isso que os olhos encantados não desviavam. Mesmo o corpo cansado, sentindo o fogo alto, a brasa quente, não deixava se mover. O povo do subúrbio não perdia um show na faixa. Teriam assunto até véspera de natal, com certeza.

É claro que a pequena casa de dois cômodos tinha habitantes ordinários, mas os espectadores esqueceram disso. Um pai desempregado, que há dias não voltava para casa. Uma mãe resignada pela incapacidade de não ter filhos, pela impossibilidade de cursar um bom colégio, o destino cruel que lhe martelava a nuca magra. Havia também, por favor, não esqueçam dela, a menina adotada, encontrada na rua, olhos tristes de dar dó. Sozinha no mundo. Feinha.

Ninguém chorava lágrimas fingidas. A pobreza, acostumada com a desgraça cotidiana, não tinha tempo para tamanha frivolidade. Um vizinho murmurava aflito se os bombeiros não iriam chegar, pois tinha medo que sua casa também tombasse, ante a chama voraz que animava a noite. Um padeiro, a cabeleireira sonolenta, todos estavam lá, mas era como se não estivessem. Como se não lembrassem que almas discutiam o dinheiro para o leite, passavam a roupa esburacada, passavam fome, naquele sobrado. Talvez imaginassem que todos já estivessem salvos.

Estrondos e murmúrios vinham de dentro da cozinha, coisas caindo, móveis torcendo. Seria impossível presumir de quem fora a culpa. Se dá mãe distraída, um ferro que ficou em cima da roupa. Se dá criança assistindo TV, faíscas irrompendo pelo tapete encardido.  

A criança. Correrá com muito medo para dentro do banheiro. Achava que o único lugar onde sempre havia alguma água disponível a salvaria do fogo que parecia lhe procurar. Chamou pela mãe com toda potência de sua vozinha, mas, por não escutar a resposta, achou que novamente estava sendo ignorada. A mãe constantemente fazia isso. Pedia, depois, que não a chamasse de mamãe. Seu choro era contido e soluçado.


À menina restou abraçar seu único brinquedo e companheiro na hora do sono, e sentir o ar mais quente, cada vez mais bravo, da casa em chamas no subúrbio da cidade. Ela não pedia mais por seus pais ou pelos bombeiros. Não pedia por brinquedos, não queria chocolate com sorvete. Queria mesmo não ficar sozinha outra vez.


Do lado de fora, um silêncio cheio de respeito. O povo não sabia o que viria primeiro. Se o teto caía, se o dono da casa chegaria bêbado. Alguém comentava alguma coisa, mas logo era calado pela indiferença alheia, forte como uma navalha. Talvez uma chuva acabasse com o espetáculo, o quem sabe os bombeiros apareceriam. 

Uma nova leva de pessoas, vindas das ruas de cima, chegava. Dentre elas, uma garota de cabelos enrolados, cheios, que conhecia a menina de olhos tristes. Nas terças feira, quando sobrava tempo, de quinze em quinze dias, entrava naquele sobrado apertado, com lápis multicoloridos e revistas cheias de bichos e mistérios à desvendar. Ficava lá até o fim da tarde, trazia alegria sincera para alguém que mal conhecia essa palavra, mal soletrava.


Um vazio terrível apertou o peito da garota. Tinha certeza que a criança ainda estava no sobrado, erguido com remendos de madeira, pedaços de papelão, poucos tijolos roubados. Sem entender bem o porque, foi empurrando aquele povo todo com fúria, rancor, e estacou frente ao fogo, a porta já caída. Foram só segundos. Não pediu ajuda de ninguém, não esperou, ansiosa, os bombeiros. Cometeu a loucura de adentrar na casa, cabeça baixa, coração descompassado.

Não conseguia enxergar nada. A fumaça entrou cruel em seus pulmões, seus olhos, sentiu queimar. Correu para o banheiro como se tivesse sido avisada que alguém lhe esperava ali. Entrou, puxou para si a criança e não pensou na morte, não. Pensou, sim, que toda sua vida, seus poucos vinte anos, tinham culminado para aquele instante. Sua missão no mundo bem poderia ser essa: não deixar uma criança partir sozinha.
 

Tentaram por duas vezes, mas não conseguiram sair do banheiro. A garota, então, fechou os olhos esperou. Sentiu a mão pequena fechar na sua, como agradecimento, gratidão. Talvez a criança não entendesse o tamanho daquele ato, mas não importava. Estavam juntas contra o destino torto, que vai levando os desavisados para longe de seus sonhos.

Sem conseguir abrir os olhos, impossibilitadas de sentir algo além do calor, restou àquelas duas apenas escutar os barulhos, que aumentavam, diminuíam, assustavam. Tinham muito medo da dor, da angústia de uma morte inadmissível, intolerável.  


Engraçado, a garota não via o filme de sua vida, não relembrava seus bons momentos e tudo que perderia por sua escolha. A vida que via e que relembrava era da menina. Pensava na injustiça de ter sido largada numa vala qualquer do asfalto cinzento; no azar de ser acolhida por alguém que não a queria de verdade; no futuro funesto que cercava aquela criança. Empregada, faxineira, puta. Queria gritar, mas não podia. Queria chorar, não conseguia. Finalmente desistiu de tudo e foi como se dormisse. Tudo apagou num instante.

Mas tarde, já no hospital, o médico lhe contou, feliz, sobre homens e mulheres que enchiam baldes de água, levantavam escombros, gritavam por mais ajuda e reforço. Seu exemplo tinha contagiado duas ou três pessoas e a corrente iniciada por seu gesto foi se espalhando pelo povo do subúrbio. Ao invés de morte, renascimento. Lágrimas de felicidade, não de tristeza. O reencontro fulminante do pai empregado e sua filha querida. Salvará não só uma criança, mas o coração de muitos. 


Sim, essa é a história que eu gostaria de contar. Uma desgraça, uma vítima, um sacrifício para fortalecer a esperança, um final feliz, como nos filmes. Mas, na vida real, o coração dos homens às vezes falha quando tem que agir e, mesmo com o cheiro acre da morte subindo em direção a lua minguante, não houve outro exemplo a ser seguido, não houve comemoração a ser contada. A manhã rompeu em garoa e ela, só ela, apagou o fogo, no sobrado esquecido e escondido dum subúrbio de cidade grande. Finalmente o povo chorou e questionou e gritou. Mas então era tarde demais.
 

mea culpa

November 9th, 2007 | lukasmaio


Eu aluguei um rifle de alto alcance, militar. Subi no prédio residencial, que fica em frente ao bar que ele costuma freqüentar. No último andar, morada de apenas uma senhora desbotada, debrucei-me na estreita janela e esperei. Esperei. Todo minuto pensava na liberdade que meu ato traria. O ar seria mais leve.

Finalmente ele saiu, meio melancólico, meio sorrindo. Antes de pressionar o gatilho de aço, no entanto, a mão que deixava o bar arrastou uma garota. Baixa, cabelos pretos, olhava tudo com um ar encantado, desnecessário. Uma gota de suor escorreu, da testa à bochecha, e caiu como um estrondo. O coração já em frangalhos, hesitou. Foi tempo suficiente para perder a oportunidade de matar o Poeta.

O desgraçado simplesmente dava um jeito de safar-se, toda vez. De nada adiantava queimar os livros, apagar os textos. Tudo era em vão. Ele contagiará a todos nós, como uma praga bíblica.

October 29th, 2007 | lukasmaio

Outra vez o céu escureceu em Terra do Nunca. Retornou a maldição que se acreditava expurgada. Peter Pan, adulto, trará desgraça a todos que sobreviveram de sua última investida. Inseguro, primeiro buscará destruir a única coisa que pode devolver-lhe a pureza e impedir sua ascensão ao poder: o carinho de Wendy. Sem essa distração enfadonha, não existirão mais obstáculos, defesas, limites. Ele será absoluto em sua maldade recém descoberta.

Quase soneto

October 22nd, 2007 | lukasmaio

Pode não ser nada, meu bem,
Mero vulto de afinidade.
Mas se for algo, o que tem?
Esqueça tua fidelidade.

Eu quero ser mais que alguém,
Alimentar tua ansiedade,
Roubar tua paz, ir muito além,
Desvendar cada vontade.

Talvez me chamem de ladrão,
Por usar de versos e ternura
Para tomar teu coração.

Não importa, pois só perdura
Segundo lívido, paixão,
Fuga inquieta da razão.


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Intimidade

September 24th, 2007 | lukasmaio

     No mais rubro pôr-do-sol, dia fresco de junho em terra de São Pedro, interior de São Paulo, Carlos contava as nuvens, sentado em rede larga, casa de seu tio. Na varanda espaçosa, cheia de grandes e pequenos vasos, com flores e plantas de toda espécie, balançava sem ritmo, usando o pé contra a parede. Cantarolava um jazz antigo, assobiava certa valsa que nunca dançou, aguardando que a noite alcançasse sua morada. Primeiro o portão baixo, de ferro enferrujado, que destoava com o muro pintado de verde musgo recentemente. Depois o quintal de terra batida, com pedacinhos de mato crescendo em alguns pontos isolados. Enfim, esperava que a noite viesse e tocasse seus calcanhares, enroscados na rede remendada. O tempo desacelerava em São Pedro , sem qualquer pressa de fatos novos, agitação.

     Ao sinal dos primeiros mosquitos, levantou-se. Tomou copo de água num gole só, vestiu uma camiseta regata, amarela, acenou para o velho tio, afundado no sofá em frente a televisão e, sorrateiro, furtou as chaves da moto. Não sabia marca, não tinha documentos. Destino.

     Fazia questão de parar em cada farol, cada lombada, acelerar. Queria ser visto. Sua solidão era aplacada quando observado atentamente por um passante mediano, ou fisgado ardentemente por um olhar de nativa. Gostava de estudar os olhos curiosos da população, as casas sempre iguais, as repetidas praças e igrejas, sua prefeitura, de medidas rudes e quadradas. E, pensando no motivo de alguém querer trocar aquela tranqüilidade pela vida feroz e incerta do asfalto quente de São Paulo, encontrou sem querer algo que procurava sem saber: um bar de esquina.
    
     Três mesas do lado de fora, cheias. Subindo um degrau, surgia um comprido balcão, duas atendentes, o dono. Mais mesas nos fundos, dominadas pelos bons bebedores, convictos de que a noite seria longa. Movimento, confusão, tumulto.
Pegou uma cerveja, sentou na beirada de um banco da praça, bem próximo, deixou-se no exame intenso dos atos, das risadas, de um bar em começo de atividades, cheio de pequenos desentendimentos e emoções.

     Viu garotos de boné, camisetas estampadas, todos guardando certo carro azul claro, estacionado próximo ao meio fio. O porta-malas aberto revelava um sistema de som respeitável, que fornecia música para todos os consumidores do bar.

     Outro grupo, misto, desencanará da cerveja e trocava goles no gargalho de uma vodka barata. O som das risadas aumentava na medida em que todos iam ficando mais bêbados, os desafios mais graves, as investidas mais certeiras. Era com muita naturalidade que se formavam os casais. Saíam em busca dos cantos mais sujos e escuros da pracinha, onde a luz dos postes velhos não alcançava. Mãos subiam e desciam, corpos avolumavam-se colados um ao outro, olhos fechados.

     Todos estavam acostumados àquela rotina boêmia. Conheciam os passos, tinham ensaiado desde tenra infância os movimentos essenciais de uma noite sem grandes objetivos, aproveitada só para o prazer. Quando não se combinava com o ambiente, a solução era simples: beber mais.
    
     Lá pela terceira garrafa (Carlos era forte), criou coragem para jogar truco. Todos os tipos de interioranos podiam ser encontrados ali, buscando quem sabe adrenalina, quem sabe respeito. Não se considerava um jogador excelente, mas tinha consciência de que encontraria satisfação, apaziguamento naquelas cartas. Abarrotada de expectadores ansiosos pela primeira briga, foi buscando espaço perto da mesa. Quando chegou, foi logo qualificado como próximo. Colocou o dinheiro na mesa, a cerveja no chão.
    
    
Não esperava que sua dupla fosse uma garota. Ela conhecia os sinais básicos, jogava num estilo parecido com seu, sem medo, chamando atenção. Bebia largos goles de um líquido claro, que podia ser água, podia ser pinga. Quando não olhava fixa para as cartas, despejava simpatia para todos que lhe dirigiam sorrisos. Carlos adivinhou que ou ela era muito ingênua - não percebia os trejeitos que lhe dirigiam - ou tinha plena convicção de sua beleza, de seu encanto. Perderam o primeiro jogo.

     Descobriu que o líquido claro era pinga, e não recusou, não poderia. Ela conseguirá uma garrafa com o dono do bar, seu conhecido. Enchia o copo incansavelmente, sem intervalos.

     Foi inevitável o contato, imperativo. Um dedo que passava sem intenção por um cotovelo, um queixo que caía tranqüilo numa testa. Dois ombros que se trombavam, duas bocas que quase se tocavam, arrepios. Duas mãos desconhecidas enlaçando-se com força, sem motivo. Carinho na nuca dela, cafuné no cabelo dele. Carlos era fraco com mulheres. Não conseguia deixar de sentir vertigens toda vez que ela buscava apoio na sua cintura, proteção.

     Quando sentaram novamente na mesa, tinham tanta intimidade aflorada, tantos segredinhos safados e impuros, que não puderam ser removidos dali. Ganhavam jogo atrás de jogo, com habilidade, malícia. O dinheiro era usado para pagar a bebida dos perdedores que, afogados em cerveja, deixavam de brigar. Esbanjavam boa sorte, subiam na cadeira, gritavam, venciam.            

     Mas foi difícil para Carlos. O problema não era técnico, obviamente. Toda vez que olhava para ela, a fim de captar os sinais, os preceitos pra vencer aquela rodada específica, perdia-se. Quando ela piscava, quando mandava beijinhos, quando colocava a língua para fora. Cada manilha era um sofrimento para ele, que sentia em seu corpo ansiedade, ciúme, tesão, e mais, e menos. A bebida subia na cabeça com força, o cheiro de cigarro dominava o ambiente, mas ele nem notava.

     Fugiram de mãos dadas do bar. Ela arrastou Carlos, correndo, pulando. Estavam bêbados e extasiados com um novo medo: terem encontrado sua alma gêmea. Eram jovens, tinham tanto a desvendar, tantas pessoas para conhecer. Nem achavam que isso existia. Só nos contos.      

     Caíram numa relva seca, campo aberto, perto dos limites urbanos. Estavam cansados, mas não percebiam. Nem a areia, nem o suor, nem o mato recém carpido, que pinicava as costas dela. Ela tinha os cabelos lisos e castanhos mais lindos que ele já tocará. Ela tinha no rosto redondo pintinhas tão leves, no sorriso um brilho tão inquestionável. Ela não era alta, não tinha corpo de atleta, mas possuía uma graça indispensável às mulheres inesquecíveis, um gingado feminino, uma realeza leonina. O tempo em São Pedro acelerava, demente, louco, não aceitando que Carlos aproveitasse a vida tão intensamente.

     Cada beijo terminava com respiração ofegante, vazada, alta. Cada toque roubava dos dois o pudor, a sensatez, o medo, deixava-os mais livres. Começaram rápido, ansiosos, desesperados para encontrar a nudez um do outro. Carlos beijava cada centímetro do corpo dela, mordia, apertava contra si, buscava de alguma forma unificar os pecados num só. Quando delicadamente ela entreabriu as coxas, ele invadiu sua imensidão como um dilúvio, buscou sua flor extrema como necessidade última.
    
     Penetrava sem pressa, com vontade, mas sem pressa. As vezes fechava os olhos, com medo de abriu-los e descobrir que sonhava. E quando os abria, via finalmente sua alma gêmea revelada, extasiada, sentia na sua pele aquela tão suave, tão doce.

     Os gemidos baixos e descompassados, a boca entreaberta. A cada gesto Carlos sentia uma onda de prazer imensurável. O orgasmo chegou para os dois como a luz do sol, que inexoravelmente rompe a noite. Eles não queriam que terminasse jamais. 

     Os corpos cansados e abraçados prostraram-se deitados na relva seca, sem pudor. Carlos fingia que dormia, quando ela foi embora. Ela fingia indiferença, enquanto vestia o jeans, a blusa cinza, prendia os cabelos, ensaiava passos de despedida. Nunca mais encontraram algo semelhante em suas vidas. Pela fugacidade, pelo ardor, pela necessidade intempestiva de consumir-se, de retirar a paz um do outro, que se reconheceram como predestinados.

     Quando chegou a casa do tio, transpassou o portão de ferro, subiu os degraus, encostou com carinho a velha porta. Carlos encontrou-o dormindo no sofá, televisão ligada. Sorriu com indiferença. Continuou sorrindo quando constatou que não encontrava as chaves da moto, nem sua carteira, nem seu celular, nem sua esperança de ser feliz de novo.

     Ainda sim, tirou a camiseta, deitou na rede larga, ficou contando as nuvens, dormiu um sono sem sonhos, sem vozes, sem nada. Deixou que sua alma esquecesse o que tinha perdido. Só muito tempo depois, atarefado em seu escritório na Paulista, divorciado, vice-campeão de squash na academia do bairro, Carlos lembrou que ela sussurrou de repente “te amo”.

Pressentimento

September 20th, 2007 | lukasmaio

Quando eu era moço
Me disseram que o amor
É uma pedrinha luminosa presa
A outras pedras
No mais fundo do mar.

E que bastaria que eu
Pulasse sem medo e sozinho
Afim de buscar essa pedrinha
E todos os seus mistérios
Sentidos da alma humana

Então pulei sem hesitar
Milhares de vezes, de dia
De noite, em feriados santos..

Mas esqueceram de avisar o moço
Que era necessário tomar fôlego
Antes de qualquer esforço.

 

Incansavelmente eu pulava
E inexoravelmente me afogava
As vezes quase me afogava.

Das vezes que quase me afoguei
Sobraram versos e mensagens
Risadas e lamentos e maldades
Sobraram várias coisinhas pequenas
(Lembrança da expectativa de amor)

Das vezes que plenamente me afoguei
(Foram duas, Carlos)
Não restou nada.

Nunca sei ou saberei se realmente toquei
A pedrinha luminosa, se puramente desvendei
Seus segredos tão lentos, tão brandos.

Porque apesar de todo o esforço
Encontraram o bom moço
Largado em praia movimentada, sem memória,
Sem história, sem qualquer argumento
Pra falar do amor que viveu.

Esse vazio, vazio
Tem mais presença em mim
Do que todos os beijos desejos sensações.

Quando eu era moço
Me ocultaram a verdade (cretinos)
Que mais doído que amar
É ter que esquecer um grande amor,
Conviver com a saudade.

Que arde,
Até ser consumida por nova dor.

Mensagem

September 6th, 2007 | lukasmaio

Se tudo me roubassem, e só com um fiapo me deixassem,
Restaria amar alguém que nunca me amou,

Poderia ser meu grande inimigo,
Talvez um trausente distraído.
Aquele velho mendigo, meu amigo.

Mas bem que poderia ser você,
(e seus olhos e seus cabelos longos e pretos)

Que não conheço, que não sabe meu nome,
Que não imagina que faço versos versos a noite,

E nesses últimos instantes, ante a derradeira tão esperada, antes de sucumbir,
(Pois, quem sabe o que será?)
Só sei que amei alguém que nunca me amou,
E sei também que ela tão logo não me esquecerá.