Imagine se o tempo todo você sentisse aquilo outside te oferece. Não falo do sopro de vida no ato de dropar uma onda, de construir linhas inexatas sobre sua superfície lisa, observando enquanto aquela massa de água se precipita e em alguns segundos explode sobre seu corpo e prancha. Seria injusto, um bando de homens e mulheres felizes demais para parecerem normais, fazendo coisas inúteis e sorrindo, assobiando. Falo da paz, da plenitude, do sentimento de vazio que te preenche e te engole, tornando você um viciado por aquele horizonte azul, um solitário sempre esperando, aguardando, sabendo que o próximo momento sempre vai ser bem melhor. Não é alegria, mas uma certeza de que a resposta para todas as nossas perguntas está logo ali. De que o medo que sentimos tem fundamento: ele nasceu para ser superado.
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Monday, December 29th, 2008
só do essencial
Monday, September 15th, 2008Acordar de manhã faz parte da rotina de qualquer filho da classe média, ansioso por um futuro cheio de tranquilidade. Ir para o trabalho em um ônibus lotado, talvez pegar aquela antiga mala do colégio, encher de livros jurídicos e frequentar a faculdade. Não importa. É preciso dormir pouco, trabalhar muito, estudar. Tudo durante a semana. Mas, nos sábados e domingos, a boa idéia é permancer na cama mesmo depois do despertar, enrolando, resmungando, esperando que algum imperativo do destino obrigue o abandono da preguiça e do descanço merecido.
O mar é um imperativo na minha vida.
São 8:00, o céu está nublado, feio. Eu olho as ondas da praia do Tombo, não consigo pensar em nada, só no vento gelado mexendo as folhas das árvores, furando minha pele com farpas. Seu cessar é um alívio, seu retorno um sortilégio. Bem, eu podia guardar a prancha na capa, deixar os pés de pato encostados, dormir um sono leve na rede do apartamento.
Corro até a beira da água. O movimento repentino afasta a sensação de que meu corpo vai congelar. Começa então o sacrifício. O surfista deve ceder grande parte da sua energia em remadas incansáveis em direção ao outside, afundando, voltando, respirando apressado, como louco. Cada onda ultrapassada faz com que prancha volte alguns metros, tornando o trabalho exaustivo, um jogo de paciência que nem todos conseguem vencer. Um local decente conhece todos os pontos certos onde pode ultrapassar. A um paulistano afoito resta testar a sua sorte. Talvez Netuno repare meu esforço atípico e abra os braços, em uma recepção calorosa.
Quase a eternidade até a arrebentação. Ao sentar na prancha e constatar que sacrifício foi concluído, advém o primeiro sorriso. Enquanto recupero minhas energias, observo outros shapes rasgando a crista, outros braços tocando a parede das ondas gordas. Vejo se há mulheres, se existe mais algum bodyboarder dentro da água.
Percebo o nível técnico acentuado dos companheiros dessa manhã. Todos possuem uma base sólida, atravessam a onda em linhas específícas, tiram muita água em cada batida. Antes do estalo, de entender exatamento onde acabei entrando, escuto os gritos de um surfitas, numa lycra vermelha.
- Doidão, é campeonato!
Não sei se soco a água gelada, com raiva. Não sei se dropo a melhor onda da série, e pergunto pro o juri o que acharam da minha atuação.
São 11:00, eu mudo de praia, mas o céu continua o mesmo. Agora estou em Pitangueiras e carrego o castigo de desbravar mares que não estão a minha altura: caimbra. Ele ataca terrível a panturilha esquerda, trazendo dor, insatisfação, vontade de entregar os pontos, secar a prancha, guardar os pés de pato na garagem, deitar naquela rede espaçosa…
Eu corro pro mar com medo das séries maiores, da inevitável dor na perna e, mesmo tendo que sair outras três vezes para esperar passar a caimbra, sou recompensado com as ondas buraco, os momentos memoráveis, que vão permear as horas e os minutos da minha labuta jurídica. Me salvar dos problemas maiores, dos dilemas da alma, das provas repentinas que devemos ao mundo.
Faço uma prece pra Netuno antes de dormir.
