Antes um sobrado sem graça e sem limpeza, agora uma tocha incandescente que atraía curiosos sem culpa. O incêndio não exibia motivos, respostas. Ardia com um fervor religioso e era por isso que os olhos encantados não desviavam. Mesmo o corpo cansado, sentindo o fogo alto, a brasa quente, não deixava se mover. O povo do subúrbio não perdia um show na faixa. Teriam assunto até véspera de natal, com certeza.
É claro que a pequena casa de dois cômodos tinha habitantes ordinários, mas os espectadores esqueceram disso. Um pai desempregado, que há dias não voltava para casa. Uma mãe resignada pela incapacidade de não ter filhos, pela impossibilidade de cursar um bom colégio, o destino cruel que lhe martelava a nuca magra. Havia também, por favor, não esqueçam dela, a menina adotada, encontrada na rua, olhos tristes de dar dó. Sozinha no mundo. Feinha.
Ninguém chorava lágrimas fingidas. A pobreza, acostumada com a desgraça cotidiana, não tinha tempo para tamanha frivolidade. Um vizinho murmurava aflito se os bombeiros não iriam chegar, pois tinha medo que sua casa também tombasse, ante a chama voraz que animava a noite. Um padeiro, a cabeleireira sonolenta, todos estavam lá, mas era como se não estivessem. Como se não lembrassem que almas discutiam o dinheiro para o leite, passavam a roupa esburacada, passavam fome, naquele sobrado. Talvez imaginassem que todos já estivessem salvos.
Estrondos e murmúrios vinham de dentro da cozinha, coisas caindo, móveis torcendo. Seria impossível presumir de quem fora a culpa. Se dá mãe distraída, um ferro que ficou em cima da roupa. Se dá criança assistindo TV, faíscas irrompendo pelo tapete encardido.
A criança. Correrá com muito medo para dentro do banheiro. Achava que o único lugar onde sempre havia alguma água disponível a salvaria do fogo que parecia lhe procurar. Chamou pela mãe com toda potência de sua vozinha, mas, por não escutar a resposta, achou que novamente estava sendo ignorada. A mãe constantemente fazia isso. Pedia, depois, que não a chamasse de mamãe. Seu choro era contido e soluçado.
À menina restou abraçar seu único brinquedo e companheiro na hora do sono, e sentir o ar mais quente, cada vez mais bravo, da casa em chamas no subúrbio da cidade. Ela não pedia mais por seus pais ou pelos bombeiros. Não pedia por brinquedos, não queria chocolate com sorvete. Queria mesmo não ficar sozinha outra vez.
Do lado de fora, um silêncio cheio de respeito. O povo não sabia o que viria primeiro. Se o teto caía, se o dono da casa chegaria bêbado. Alguém comentava alguma coisa, mas logo era calado pela indiferença alheia, forte como uma navalha. Talvez uma chuva acabasse com o espetáculo, o quem sabe os bombeiros apareceriam.
Uma nova leva de pessoas, vindas das ruas de cima, chegava. Dentre elas, uma garota de cabelos enrolados, cheios, que conhecia a menina de olhos tristes. Nas terças feira, quando sobrava tempo, de quinze em quinze dias, entrava naquele sobrado apertado, com lápis multicoloridos e revistas cheias de bichos e mistérios à desvendar. Ficava lá até o fim da tarde, trazia alegria sincera para alguém que mal conhecia essa palavra, mal soletrava.
Um vazio terrível apertou o peito da garota. Tinha certeza que a criança ainda estava no sobrado, erguido com remendos de madeira, pedaços de papelão, poucos tijolos roubados. Sem entender bem o porque, foi empurrando aquele povo todo com fúria, rancor, e estacou frente ao fogo, a porta já caída. Foram só segundos. Não pediu ajuda de ninguém, não esperou, ansiosa, os bombeiros. Cometeu a loucura de adentrar na casa, cabeça baixa, coração descompassado.
Não conseguia enxergar nada. A fumaça entrou cruel em seus pulmões, seus olhos, sentiu queimar. Correu para o banheiro como se tivesse sido avisada que alguém lhe esperava ali. Entrou, puxou para si a criança e não pensou na morte, não. Pensou, sim, que toda sua vida, seus poucos vinte anos, tinham culminado para aquele instante. Sua missão no mundo bem poderia ser essa: não deixar uma criança partir sozinha.
Tentaram por duas vezes, mas não conseguiram sair do banheiro. A garota, então, fechou os olhos esperou. Sentiu a mão pequena fechar na sua, como agradecimento, gratidão. Talvez a criança não entendesse o tamanho daquele ato, mas não importava. Estavam juntas contra o destino torto, que vai levando os desavisados para longe de seus sonhos.
Sem conseguir abrir os olhos, impossibilitadas de sentir algo além do calor, restou àquelas duas apenas escutar os barulhos, que aumentavam, diminuíam, assustavam. Tinham muito medo da dor, da angústia de uma morte inadmissível, intolerável.
Engraçado, a garota não via o filme de sua vida, não relembrava seus bons momentos e tudo que perderia por sua escolha. A vida que via e que relembrava era da menina. Pensava na injustiça de ter sido largada numa vala qualquer do asfalto cinzento; no azar de ser acolhida por alguém que não a queria de verdade; no futuro funesto que cercava aquela criança. Empregada, faxineira, puta. Queria gritar, mas não podia. Queria chorar, não conseguia. Finalmente desistiu de tudo e foi como se dormisse. Tudo apagou num instante.
Mas tarde, já no hospital, o médico lhe contou, feliz, sobre homens e mulheres que enchiam baldes de água, levantavam escombros, gritavam por mais ajuda e reforço. Seu exemplo tinha contagiado duas ou três pessoas e a corrente iniciada por seu gesto foi se espalhando pelo povo do subúrbio. Ao invés de morte, renascimento. Lágrimas de felicidade, não de tristeza. O reencontro fulminante do pai empregado e sua filha querida. Salvará não só uma criança, mas o coração de muitos.
Sim, essa é a história que eu gostaria de contar. Uma desgraça, uma vítima, um sacrifício para fortalecer a esperança, um final feliz, como nos filmes. Mas, na vida real, o coração dos homens às vezes falha quando tem que agir e, mesmo com o cheiro acre da morte subindo em direção a lua minguante, não houve outro exemplo a ser seguido, não houve comemoração a ser contada. A manhã rompeu em garoa e ela, só ela, apagou o fogo, no sobrado esquecido e escondido dum subúrbio de cidade grande. Finalmente o povo chorou e questionou e gritou. Mas então era tarde demais.